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Em verdade vos digo que viver por estes tempos modernos não é lá tão fácil, assim como não é tão difícil, principalmente, para humanos como este poeta amarfanhado, que tem dois ouvidos e apenas uma boca. À moda dos chineses, escuto muito e falo pouco, bem depois de ponderar bastante sobre qualquer coisa, principalmente, quando o interlocutor é parte constitutiva deste grupo fascinante por mim denominado belo sexo, ou divino gênero... Como elas são maravilhosas!

O contrário deste manobreiro de palavras é o Astrogildo Berimbau, uma alma penada e alienada que mantém comigo relações quase incestuosas. Viveu em Recife. Numa arruaça, em 1904, desceu a lenha numa meretriz e teve que sair à francesa com medo de peia. Foi, então, morar na Espanha, em Valladolid e, depois, em Barcelona, onde passou a ser jornaleiro. Adquiriu nacionalidade espanhola e, com a ascensão do Generalíssimo Franco, fez-se comunista. Numa madrugada de chuva fria, num beco escuso da Rambla, o bairro, tomou um tiro na cara e foi conversar com Deus, de pertinho, sem maiores problemas. Não tenho nenhuma pena dele. Primeiro, bateu numa mulher que queria apenas lhe extorquir. Depois, foi se meter em política logo no país dos outros e contra um ditador assassino histórico, furibundo e enfezado até as tripas.

Agora, como tenho de ir às segundas, às cinco da manhã, ao mercado dos peixes da experimental, ele me acompanha já a partir da ladeira e segue, por quase um quilômetro, ao meu lado, dizendo as suas pabulagens cheias de razão e de um cinismo caótico... Debochado até a medula!

Ver alma é uma arte que este poeta mórbido bem domina. Uma vez eu o vi ao longe em umas botas pretas de cano longo e roupas de bacana. Agora, ele simplesmente flutua e conversa sem mostrar do joelho pra baixo, ou nem aparece, mas fala ao meu ouvido num portunhol tosco e com uma voz de prostituta ou homem efeminado. Lembra muito a Xana da novela.

Ele me acha de uma paciência extrema e eu o sou, sim, principalmente, quando tudo se relaciona a essas coisas do mundo do lado de lá. É preciso muita calma nessa hora, certamente.

Na primeira segunda de 2019, ele estava frenético e crítico demais, como sempre, e saiu a fazer digressões sobre esta tal paranoia do amor em tempos bicudos. Horas depois de tanto refletir, findei por dar razão aos argumentos rocambolescos daquele espírito de porco.

Vejamos algumas das muitas razões defendidas pelo senhor Berimbau. 

O ser humano deturpou o juízo, estuprou a alma e perverteu o sentido do amor. A parcela de loucos aumenta a cada dia que Deus dá. A mentira faz morada nas relações mais sólidas, inclusive, em muitos casamentos duradouros. De repente, uma paixão extraconjugal, de forma avassaladora, desbota sonhos e faz a tempestade. Enfim, tudo rui.

Tudo isto é muito evidente nos dias que correm. O casamento civil é uma farsa montada a quatro ou mais mãos que já não pensam na vida a dois na realidade. Assinam um contrato cuja cláusula mais importante é o famigerado item que trata das posses. Os pobres optam, ou são levados a optar, pela comunhão parcial de bens. Ou seja, a partir do enlace, tudo o que for produzido pelo casal passa a ser dos dois, inclusive, a miséria e as dores de cabeça atrozes frutos das tormentas causadas pelas puladas de cerca, porque pular muros é realidade de uma outra classe social.

Entre os ricos - aí o bicho pega mesmo! - é mais corriqueira a comunhão total dos bens, inclusive, entra no jogo aquele apartamento que o noivo bacana mantinha enquanto garçoniere e para onde levava donzelas e damas ao tratamento terapêutico do sexo frugal entre quatro paredes. Uma pilantragem bem moderninha.

Depois de um ou dois meses, certamente, o pau quebra já na primeira traiçãozinha. Aí vem um rábula, que se intitula advogado, passa a perna nos dois e começa a fazer parte do casamento em pandarecos, uma vez que está disposto a levar tanta grana quanto os componentes envolvidos num processo cujo número de páginas ultrapassa ao da própria Bíblia, sobre a qual juraram fidelidade e amor eterno até que a morte os leve ao inferno dos infiéis, depois de trocarem tiros de madrugada, em frente ao motel Escort, na Avenida Niemayer. 

Há sempre interesses em conflito. Como anotou Caetano Veloso, a força da grana é que ergue e destrói coisas belas. Um está de olho no patrimônio do outro. Boa parte dos mais jovens, então, vê no parceiro amplas possibilidade de progresso futuro em vista da sua performance enquanto estudante universitário. 

Ora bolas! A inteligência mínima exige que eu não me case com uma pobretona. Seria o caos. Eu, Astrogildo, teria, sim, uma sócia no negócio do casamento que entraria sem uma ruela. Nada a ver!

Cá do limbo em que Deus me socou, sou levado a observar que, infelizmente, o mundo endureceu. Há a falta de diálogo. Já não se busca o ser diplomático. O jogo de cintura e a negociação harmoniosa são esquecidos por pessoas que gravitam ao redor do próprio umbigo. 

Aí, o espírito de porco se tornou exceção à regra, na Espanha, posto que era ladino, atacava pelos flancos cujas defesas estavam debilitadas, como Sun Tzu na Arte da Guerra. Conversava manso e franco, mensurava as palavras de forma a não chocar a distinta contendora. Pegava leve e com ternura, sim, e ponderava bastante as razões da interlocutora de forma a dar lastro para que ela pensasse nele apenas enquanto o Dom Quixote cavaleiro andante que realmente era, numa alusão ao Raul Seixas.

Depois de uns cinquenta passos meus, o Astrogildo usou a matraca e fez comparação porreta, bem ao modo do sujeito inteligente e sagaz que é ou foi.

Segundo ele, a economia enquanto ciência humana permite que uma jovenzinha de dezoito primaveras, sem arrimo e sem tostão, filha de pobre mesmo, viva um grande amor ao lado de um sessentão de bucho ostentoso, o que não é o caso do Buarque, que não tem barriga, mas tem uma mocinha que divide apartamento e alcova com ele no Quartier Latin, em Paris. 

Para esta alma idolatrada, é aceitável, sim, essas uniões hoje tão comuns, porque o dinheiro faz justiça e passa a ser distribuído de forma mais equânime quando gira em torno de quem é mais pobre, como a Marietinha, uma pós-adolescente que se casou com o Duque de Sevilha, de quase setenta voltas ao redor do sol.

É melhor o velhote dar a grana que ela merece do que guardá-la em aplicações financeiras que fazem a moeda rodar lá em cima, entre os interesses dos grandes conglomerados financeiros.

Aí ele fez pergunta cruel. Porque é que a Zuleidinha foi se apaixonar logo por aquele filho do Nabuco? Ela não viu que ele é apenas um sujeitinho pobre que nem Jó, que não tem eira nem beira e nem a rama da figueira. Mas se apaixonou por um vadio. Ele enfiou-lhe um bucho de goela adentro, se escafedeu e agora ela tá aí, sem estudo, quase pedindo esmola para sustentar uma família formada por ela e o filho de dois anos. Bem que o viúvo da esquina queria desposá-la. Ela agora estaria luxando e em passeio por esse mundão afora. Meteu-se com um zé ninguém e se estrepou na real.

É por estas e por outras análises bombásticas que eu me tornei fã ardoroso deste louco varrido que, em vida, passeou com o pomposo nome de Astrogildo Berimbau. A ele, as minhas saudações eternas! Depois nos veremos, assim que Deus o permitir.

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*Escritor. Autor do romance O INVERNO DOS ANJOS DO SOL POENTE, disponível (in box) no https://www.facebook.com/claudio.porfiro>

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A nossa atual realidade social e política já não permite algumas práticas que foram comuns em um passado não tão distante. Por força de várias circunstâncias a relação entre o governo e a sociedade mudou. Hoje o cidadão está mais perto do poder, e até compartilha deste, na medida em que elege um governante, fiscaliza a tomada de decisões dele no exercício do mandato, e eventualmente decide trocá-lo, através do voto.

Essa participação massiva da população no dia a dia da política se deu muito em função da democratização do acesso aos meios de comunicação, especialmente a proliferação das redes sociais. Hoje qualquer pessoa é um repórter em potencial, que pode registrar algo de interesse público, divulgar isso, e virtualmente concorrer de igual para igual com os grandes conglomerados de mídia.

Essa agilidade na disseminação das notícias pode ajudar o governo a tomar decisões rápidas, estratégicas, e em consonância com a vontade da população, que a expõe sem filtros nos meios digitais. Este fenômeno, no entanto, cria embaraços para veículos de mídia que ainda não se acostumaram com essa nova dinâmica, de ter que disputar em pé de igualdade espaços com o internauta anônimo, com o blogueiro, com o administrador de aplicativos de mensagem, com o repórter profissional etc.

Constata-se, de forma óbvia até, que a hegemonia da mídia acabou. Em todos os níveis, em todas as classes sociais, em todos os aspectos. Veículos acostumados a receberem vultuosas quantias de verbas públicas para fazerem mera propaganda política, disfarçada de conteúdo jornalístico, caminham céleres para a decadência. Estão acompanhados daqueles que se acostumaram a destruir reputações e chantagear figuras públicas em troca de dinheiro. Estas são algumas das práticas obsoletas as quais me reportei no início desta reflexão.

Ou seja, comportar-se como dono da verdade e pensar que se está acima do crivo da opinião pública não surte mais grandes efeitos em se tratando de informação, análise e opinião. É inócuo e contraproducente do ponto de vista da credibilidade. As pessoas observam, pensam, e tem ao seu dispor incontáveis fontes para efeito de comparação das versões que se apresentam sobre um mesmo fato.

O argumento mais forte que ainda usam para justificar tal comportamento, é a liberdade de expressão. Sim! Eles têm todo o direito de publicarem meias verdades ou mentiras completas. Mas as instituições e pessoas atingidas também têm esse direito! A liberdade de expressão é uma via de mão dupla, cujos limites são o respeito, a ética e a responsabilidade social. Mais isso os adeptos da manipulação não consideram.

A velha mídia, irmã da velha política, mostra sinais claros de abatimento, está se contorcendo, arquejando, urrando em uma crise de abstinência daquilo que não terá mais. E os que ainda a seguem vão ficando cada vez mais distantes do protagonismo na construção dessa nova realidade.  Não estão levando em conta uma verdade simples: informação de qualidade é mercadoria cara e rara, quem a tem, vence a concorrência.

Rogério Wenceslau é jornalista e porta-voz do governador Gladson Cameli (PP)

Escrito 

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É oportuno misturar fatos quadrados a personagens redondos. Há os que gostariam de uma análise, aqui, a respeito do fenômeno que representam as academias de ginástica e as suas relações com a modernidade. Há outros que cogitam a possibilidade de um comentário acerca das complicações posturais que surgem a partir de exercícios executados mais a torto que a direito. Todavia, como cronista deste chão batido, observo tudo com olhos de um hipopótamo vesgo que escondem por trás de si lampejos de uma crítica invariavelmente caótica.

Estou convicto, enfim. A vaidade é a base de tudo nesta joça de mundo. Ou somos vaidosos, ou não somos ninguém. O que interessa, hoje, é aparecer bem na foto. E há adereços, adornos e enfeites de todos os tipos. Vai-se de uma tatuagem na bunda siliconada, ou de um piercing nos grandes lábios, a uma roupa da melhor grife, ou a um carrão importado direto da Bolívia, não se sabe lá por quais meios lícitos ou ilícitos.

– Cheguei à boate Diesel, fui friamente calculada dos pés à cabeça pelos olhos mais cobiçosos dos rapazes a desejarem o meu rabo de sereia. Fui invejada pelas moças mais fúteis das faculdades tais. Abalei Bangu e adjacências. Tomei todas e sou feliz, apesar da ressaca que me come o espírito por haver comprado toda a minha indumentária, fiado, em boutique qualquer. – Eis um depoimento colhido por este observador.

Ela tem certeza de que faz o que faz porque é inteligente, o que a torna um poço de vaidades. Se, com a alma, que ninguém vê, acontece esse intrincado jogo de tira e bota; com o corpo, que muitos admiram e até sentem pelo tato, tudo é muito mais real, posto que visível e palpável.

Além de autoconfiantes e empavonados, todos nós nos esforçamos muito, a fim de nos tornarmos bonitos, de cara e de corpo, muitas vezes, infelizmente, não para nós mesmos. E é aí que mora o perigo de se gastar o que não se tem, ou de se tornar impermeável feito estátuas infladas por incontáveis botox.

Existe uma onda por aí que afirma que as mulheres se enfeitam não para os homens, mas para as outras mulheres, talvez suas rivais, que se matam de inveja umas às outras, simplesmente, porque o seu tubinho é brilhoso e o da vítima, não.

Assim como corre também por aí que uma mulher, em trinta segundos, na entrada de um baile, por exemplo, já vê trinta vestidos diferentes nas cores e nos realces. Enquanto um homem, de chegada ao mesmo evento, passa dois minutos mirando apenas uma única bunda, até que a amante de plantão o faz acordar do transe com uma boa dose de uísque que encharca a cara do salafrário. Bem feito.

Esta academia demais é como as suas congêneres. Há umas moças mui belas, outras talvez. Há aquelas que, por pura cortesia, cumprimentam a todos. Outras, as mais bonitas, empinam o nariz e sequer olham para algumas almas sequiosas. (Eu, cá de minha parte, nunca fui a favor de mulher bonita que anda falando com qualquer borra botas. Elas devem ser metidas mesmo).

Há uns rapazes raquíticos, enfim chegados aos dezesseis, mas com uma louca vontade de parecerem ter trinta anos. Essa é a classe dos sabiás, devido lhes serem finos os membros inferiores. Alguns dessa categoria tomam uns tais remédios que os veterinários usam para fazer cavalo brochar, mesmo diante das melhores mulas.
Há outros que têm pernas também atrofiadas e tórax iguais ao do Schwarzenegger. Esses são os gorilas espadaúdos e com cara de poucos amigos, a respeito de quem é melhor não fazer comentários mais detalhados, por uma questão de respeito que eles impõem na força bruta que os faz esturrar debaixo de anilhas que vão a duzentos quilos ou algo mais.

Pior é ver que, dentre os gorilas, existe uma parte significativa que, por mais que o treinador lhes fale sobre a necessidade de exercitar as pernas, eles nem ligam.

– Rapazes! As mulheres não gostam de braços grossos, nem de ombros imensos. Elas gostam mesmo é de pernas bem torneadas, instrumentos firmes e bumbuns arrebitados. – Era o que falava ontem, em alto e bom som, a professora bacaninha, psicóloga e maníaca sexual de uma academia periférica.

Dos tantos anos que tenho, metade deles vivi, praticamente, dentro de uma academia. Foi aquela moça, a Penélope Distraída, à época apenas uma dama de honra, quem me inseriu entre os cultores do corpo. Achou-me as pernas finas, os bíceps tenros, a bunda não dava um pastel, os ombros se encolhiam, dentre outros defeitos anatômicos apontados.

A partir daí, passei também a professar culto aos músculos, essa minha segunda igreja pequenina em frente da qual me posto, espada em punho, vaidoso, como todos, querendo achar beleza nas tantas vezes em que olho nos espelhos incrivelmente grudados em todas as paredes desta alma orgulhosa.

Sobre os espelhos, é preciso também observar que, nas academias, são como mares insondáveis a esconderem nas suas profundezas tanta vaidade e tanta beleza que os outros não veem, mas a vítima sente.

Lembro um sábio destes mais velhos, de sessenta e lá vai pancada, e brincalhão demais. Foi ele quem disse que os mais novos vêm para a academia para ficar mais bonitos. Os de certa idade, ao contrário, vêm exercitar-se para que, assim procedendo, possam morrer um pouco depois, ou mais tarde, quem sabe, com uns quinze anos de lambuja.

O arrojado nordestino é um outro analista de respeito. Foi ele o autor de uma das melhores tiradas por mim já ouvidas, enquanto descanso desse serviço pesado, que nós pagamos a bom preço, para que o capitalista nos deixe fazer força, até nos esbaforirmos em suores e desejos recônditos de nos tornarmos mais moços a qualquer hora da noite dos nossos sonhos juvenis.

– Professor, preste atenção! – Disse ele. – As mulheres só vêm para a academia depois que os maridos as deixam. Aí, a coisa já está quase na casa do sem-jeito. Às vezes, nem a faca do Pitangui será a solução. E nós, homens, só vimos pra cá quando as nossas mulheres já dobraram o cabo da boa esperança. Mas aí tem jeito. Hoje, seu moço, um bom punhado de dólares resolve até problema de virilidade.

Ao que eu respondi:

– Doutor! Os mesmos dólares, se gastos pelas mulheres, também podem comprar tanquinhos novinhos em folha, como foram os nossos abdomens antigamente. Ora pois!

O mundo, felizmente, carece de filosofia, mesmo que seja tão tosca quanto esses arrotos de sapiência. Mas é preciso pontuar que a vaidade e o orgulho são coisas diferentes, embora as palavras sejam frequentemente usadas como sinônimas. Uma pessoa pode ser orgulhosa sem ser vaidosa. O orgulho se relaciona mais com a opinião que temos de nós mesmos, e a vaidade, com o que desejaríamos que os outros pensassem de nós. Ali está o espelho.

Infelizmente, linhas tortas como estas são lidas por muitos, mas compreendidas por poucos. Afinal, estes tais que, como eu, frequentam as academias de malhação, não o fazem com a finalidade de exercitar a inteligência parca, mas para definir o futuro das rugas que um dia substituirão bíceps e glúteos hoje tão volumosos e saudáveis.

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*Escritor. Autor do romance O INVERNO DOS ANJOS DO SOL POENTE, disponível (in box) no https://www.facebook.com/claudio.porfiro>

 

 
Claúdio Porfiro

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Em uma megalópole como Rio Branco, onde a gente se encontra em uma esquina e duas quadras depois revê a mesma pessoa, haja encontros e desencontros. Alguns não tão graves, acontece, outros infinitamente dolorosos, que nos perturbam os sentidos, que fazem a gente maldizer os céus, os astros, o destino.


Fica tudo na base do “a gente se fala”... E adeus!

Não que fosse acontecer um casamento ou algo do gênero a partir daquele encontro, nada disso, mas foram encontros bonitos, fortes, que se acabam ali mesmo, na poeira de uma tarde fria, em um café da manhã, numa simples despedida.

“A gente se fala”. Pronto, sorteada a senha para o terror, o “never more”, o vou te dá um gato, ele tem sete vidas pra você infernizar.

Nada mais detestável de ouvir do que essa maldita frase. Logo depois a porta bate e nem por milagre ela se abre.

É jovens aspiras a 007, evitem essa sentença mais sem graça. Fofoletes em flor, esqueçam, esqueçam.

Melhor dizer logo que vai comprar o cigarro do abandono. Melhor dizer que vai pra nunca mais. Melhor o silêncio, o telefone na caixa postal, o telefone desligado, o desprezo propriamente dito.

A gente se fala um caceta. Seja homem, troque de palavras, use o código do bom-tom e da decência. A gente se fala é a mãe, ora, ora.


Como canta o Rei, “use a inteligência uma vez só, quantos idiotas vivem só”...


Esse “a gente se fala” deveria ser proibido por lei. Constar nos artigos constitucionais, ser crime inafiançável no Código Penal.


A gente se fala é pior do que a gente se vê por ai. Pior do que deixar ao acaso, que jamais fiz algo certo, deixando a saudade, que vira uma questão de azar e sorte.

Melhor dizer logo “foi bom, meu bem, mas não te quero mais”. NON VOGLIONO PIÙ, como no livro de poemas que ganhei no último aniversário de uma amiga de longa data. Dizer que foi bom meu bem e pronto, ficamos por aqui, assim é a vida, sempre mais para curta do que longa-metragem.

A gente se fala é a bobeira-mor dos tempos do amor líquido e do sexo sem compromisso. A gente se fala é a mãe, aquela vaca, ora!

Seja homem, seja mulher, diga na lata.


A fila anda para os dois, jogue limpo.


A gente se fala. Então aproveita e vai olhar se eu estou na esquina, com teu coração de gelo de uma figa!


Como disse o cantor da Costa “mulher eu te peço um favor, rasque o samba que te fiz e sei que tens um novo amor... espero que sejas feliz”. Sem ressentimentos, mas a gente se fala!

 

 

Victor Augusto

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Por Paula Marques Tiveron e Rafael Azevedo*

 

A importância de uma correta transferência de imunidade passiva através do fornecimento do colostro e absorção intestinal das imunoglobulinas colostrais é reconhecida mundialmente. A mortalidade, morbidade e o menor crescimento de um animal mal colostrado, resulta em impactos econômicos negativos para a pecuária bovina de corte. Porém esse assunto ainda é deixado de lado por muitos produtores, tendo pouco estudos focados no bezerro de corte. As diversas revisões existentes na literatura científica sobre imunidade neonatal bovina referem-se quase exclusivamente a bezerras leiteiras. Apesar de associar-se a imunidade passiva igualmente a bezerros de corte e leite, os fatores genéticos, ambientais e de manejo, geralmente são extremamente diferentes, resultando em um estado imunológico diverso.

O colostro é a primeira secreção da glândula mamária produzida após o parto, sendo um alimento muito rico em nutrientes e outras substancias biologicamente ativas. Ele contém, por exemplo, carboidratos, proteínas, fatores de crescimento, citocinas, gorduras, minerais e vitaminas, sendo considerado a principal fonte de nutrientes para os recém-nascidos. Embora o foco seja a imunidade passiva em relação às imunoglobulinas, reconhece-se que no colostro contém uma grande variedade de outros fatores.

Diversos fatores poderão influenciar na produção de colostro, quanto a quantidade e qualidade. No geral, considerando que as vacas leiteiras são geneticamente selecionadas para a produção de leite, maiores volumes são esperados. Porém quando comparado a produção de colostro em vacas de corte multíparas e de vacas de leite primíparas, observa-se maior produção no primeiro grupo, refletindo o menor desenvolvimento da glândula mamária nas novilhas.

Apesar de poucos estudos quantificarem o colostro em vacas de corte, bem como relatarem a sua qualidade, observa-se influência do genótipo, paridade e nível de nutrição materna, no colostro. Estudos observaram que a indução de parto por duas semanas antecedentes reduziu a qualidade do mesmo em vacas de corte.

A ingestão de colostro em adequada quantidade e qualidade é essencial ao recém-nascido para o fornecimento de proteção imunológica durante as primeiras semanas de vida, até que seu próprio sistema esteja funcional. A absorção de anticorpos através do epitélio intestinal durante o período neonatal diminui com o tempo pós-parto e cessa após 24 horas. Sendo assim, recomenda-se que os bezerros de corte amamentem o colostro dentro de duas horas pós-parto.

Em relação ao manejo de colostragem, uma das diferenças entre os bezerros de leite e os bezerros de corte, é que no corte os animais permanecem e amamentam em suas mães, considerando que, normalmente, o bezerro leiteiro é removido de sua mãe logo após o nascimento e recebem o colostro de forma artificial. Comparado ao amamentar na mãe, a alimentação artificial tem benefícios, pois para o bezerro de corte conseguir ingerir colostro suficiente, ele primeiro precisa ficar em pé, andar, encontrar o teto da mãe e sugar, enquanto, simultaneamente, a mãe deve ter um bom vínculo materno com a cria, produzir um volume adequado de colostro com concentrações adequadas de imunoglobulinas e tetos que possam ser succionados facilmente pelo recém-nascido. Circunstâncias que afetam esses fatores comportamentais têm um impacto negativo na transferência de imunidade passiva em bezerros de corte, interferindo no desempenho do animal.

Normalmente, em bezerros de corte o tempo médio entre o nascimento e o primeiro bezerro a ficar em pé varia de 30 minutos a quase 2 horas; e o tempo médio para o recém-nascido amamentar sem assistência, geralmente ocorre dentro de 60 a 260 minutos, podendo variar em intervalos mais longos quando observados individualmente. Em rebanhos de bovinos de corte, com partos fáceis, sem auxílio, a maioria dos animais mamam dentro de 4 horas.

As recomendações de colostragem em bezerros de corte é frequentemente baseada em manejos modificados de fazendas leiteiras, e na maioria dos casos, isso é inadequado. Na pecuária leiteira, recomenda-se o fornecimento de colostro de alta qualidade equivalente a no mínimo 10% do peso vivo do animal, nas primeiras horas de vida. Algumas pesquisas já apontam que alimentar os bezerros de corte com 5% do peso vivo de colostro de alta qualidade via sonda esofágica dentro da primeira hora pós-parto, com subsequente amamentação na mãe, de 6 a 8 horas mais tarde, garante o sucesso de transferência de imunidade passiva. Ou seja, deve-se fornecer um bom aleitamento nas primeiras horas de vida do neonato, com acesso à mãe posteriormente.

Devido à dificuldade de quantificar e qualificar o colostro consumido pelos bezerros de corte, há poucas informações publicadas sobre a eficiência de absorção dos anticorpos. Porém sabe-se que bezerros de vacas mais velhas geralmente têm melhor estado imunológico quando comparado com vacas mais jovens, principalmente primíparas.

Pesquisas sobre os fatores relacionados ao manejo de colostragem interferindo na transferência de imunidade passiva em bezerros de corte são necessárias. Porém enquanto as informações são escassas, fica o alerta aos produtores para a importância do manejo de colostragem. O suporte e observação nas primeiras horas de vida é crucial para o futuro do animal!

Paula Marques Tiveron, é técnica de corte da Alta Genetics

Rafael Azevedo, é gerente de produto da Alta Genetics

Fonte: texto adaptado do artigo escrito por M. McGee e B. Earley, com o título “Review: passive immunity in beef-suckler calves”, publicado no periódico Animal de 2018.

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CLÁUDIO MOTA-PORFIRO*

A noite viria logo em seguida, naturalmente. Naquele momento, ao cair da tarde do sábado iluminado, ainda cintilavam alguns últimos e tênues raios de sol. Os fios de gelo, remanescentes do inverno, nas montanhas ao longe, se vestiam de uma tonalidade azul clarinha brilhante e amarelo dourado. O lugarejo era muito simpático e quase a sentir os ventos cortantes do Atacama. 

Tomada de uma certa dose de felicidade, ela fazia anotações para a elaboração de um livro que, muito provavelmente, seria intitulado coisas do brasil, em letras minúsculas mesmo. Os chilenos o leriam, aplaudiriam entusiasticamente e, sobre a obra, escreveriam ensaios e resenhas, com certeza, mas os brasileiros dele sequer jamais tomariam conhecimento. A mensagem transmitida pela incrível professorinha, de tantas qualidades e, por isso, perseguida e execrada, não teria eco no Brasil. No Chile, muitos dizem e garantem que os brasileiros mais pobres sempre detestaram os seus irmãos mais inteligentes, como Chico, Milton, Amado, Gullar, João Cabral, Caio Prado, Gil e Caetano, que vêm a realidade dos fatos de uma forma holística, mais geral e mais aprofundada. Segundo os de lá, a nossa gente vive uma ordem e um progresso irrisórios e medíocres a partir da origem colonial portuguesa. 

Nascida e criada na zona da mata mineira, lia tudo o que lhe caía nas mãos. Um dia, um escritor deixou gravado na mente da menina que as guerras e confrontos vencidos pelos pobres não podem ser difundidos entre estes, justamente, para que eles não tomem conhecimento da sua capacidade de indignar-se, rebelar-se e obter vitórias a partir do confronto com os poderosos, como ocorreu no Chile, quando da queda do sanguinário Pinochet.

No Brasil, então, segundo a professora, memórias e feitos verdadeiramente heroicos foram apagados da mente dos brasileiros exatamente porque os poderosos foram derrotados. Eles não querem que certos exemplos sejam seguidos. É por isto que poucos sabem a realidade dos fatos a respeito de Lampião, que não era tão somente um cangaceiro. Hoje, ninguém sabe que Antônio Conselheiro, em Canudos, derrotou o exército dos ricos em várias batalhas. Pouco noticiaram que os cabanos, gente miserável do Pará, venceram as forças do governo por cinco anos a fio. Os jornais dos donos do poder se encarregaram de minimizar o heroísmo real de Zumbi dos Palmares. Desconhecem que Emiliano Zapata, no México, derrotou a ditadura de Díaz. Ninguém fala que Sandino, na Nicarágua, enfrentou o poderio dos americanos. Não se tem mais conhecimento dos Panteras Negras, o partido negro que, nos Estados Unidos, iniciou a revolução contra os brancos ricos e escravocratas. Mesmo agora por último, a ação ecológica de Chico Mendes foi mascarada pelos fazendeiros que não queriam o seu exemplo copiado.

E a professorinha rebelde vai mais longe:

- Pior de tudo é que as memórias desses caudilhos pobres, hoje, são vilipendiadas, quando campanhas de difamação se erguem e os seus feitos são relegados a nada. As pessoas humildes passam a vê-los apenas como bandidos, porque assim os patrões o querem. Os heróis tão diminuídos levaram muitos prejuízos aos ricos em favor dos direitos dos menos favorecidos. Por isso, as imagens deles devem ser denegridas. As futuras gerações de desassistidos não podem saber que a força do dinheiro dos patrões pode ser vencida, se houver união de ações e propósitos por parte dos que sempre levam a pior na partilha dos resultados de um progresso que pertence a uma parcela minúscula de ricos que estão acima do bem e do mal.

Carmem, a bela professora, fizera graduação em Antropologia, numa grande universidade do leste do Brasil. Depois, os estudos avançados de pós-graduação foram feitos e orientados por ícones do pensamento brasileiro, como Paulo Freire, Caio Prado, Joel Martins e Marconi Montezuma. Karl Marx e Friedrich Engels, além de Gramsci e Sartre, dentre muitos outros, estavam na ponta da língua dos maiores estudiosos de então. Era preciso pensar a felicidade de todos e não a de uns poucos que se deliciam em pagar salários cada vez menores.

Segundo depoimento anotado e a ser publicado em livro por Carmem, um pequeno milagre aconteceu:

- Naquela época, fins dos anos sessenta e início dos setenta, a ilhota de excelência do interior paulista estava salvaguardada pelo reitor Zeferino Vaz. Médico conceituadíssimo em todo o Estado de São Paulo, fazia irradiar a sua competência pelo Brasil afora. O brilho da estrela era tanto que os militares, incluindo Costa e Silva e Médici, lhe faziam reverência. Em síntese, tratava-se de um intelectual de direita que conseguia dar as cartas a partir do seu feudo denominado Unicamp. Em contrapartida e em reconhecimento ao grande feito que foi a criação daquela Universidade, os generais houveram por bem deixar quietos os comunistas sob a proteção do Doutor em Parasitologia. Ficou célebre a frase de Geisel que autorizava aos carrascos da ditadura deixarem os meninos do Zeferino em paz.

Então, depois de defendidas a dissertação de mestrado e a tese de doutorado, a bela professora teve que voltar para as origens, levando as verdades apreendidas a partir do contato com os grandes mestres do pensamento nacional. Juiz de Fora, cidade mineira de vasta cultura, passaria, agora, a contar com mais uma colaboradora. Só que não.

Em dois meses, os militares fecharam o cerco e a bela teve que evadir-se levando consigo alguns alforjes cheios de revolta e a decepção por perceber que os seus irmãos de infortúnio ficariam entregues aos desmandos de poderosos que buscam tudo para si e muito pouco ou nada para os que precisam do básico, como comer, beber, vestir-se e residir condignamente. Em realidade, como ela anotou, os menos favorecidos índios, favelados, quilombolas, sem-terra, sem-teto, sertanejos e seringueiros jamais seriam citados, especificamente, nos programas político-partidários de nenhum grupo que diz os representar. Tudo falácia.

De posse de muitos diplomas e uma prática exemplar, a fuga se fez, inicialmente, até a fronteira do Paraguai, em lombo de mula e, depois, numa segunda fase, agora de ônibus, até Valdívia, onde um grupo de intelectuais banidos do Brasil a esperava. Em poucos dias, era designada a trabalhar como professora secundária em São Pedro de Atacama.

Logo de início, ela percebeu que o Chile tem vinte vezes mais livrarias que o Brasil, apesar de a população chilena ser vinte vezes menor que a brasileira. Eles leem muito e, por isso, não mais são enganados.

Carmem também anotou que a grande mídia, nas periferias ocidentais, como é o caso do Brasil, faz da arte apenas um veículo através do qual chegam apenas as verdades manipuladas que eles querem. Daí, a novela estupidifica, a mentira reverbera, a desinformação se alastra e a alienação produz o atraso das mentalidades.

Depois do período chileno, Carmem voltou à terra natal e houve por bem escrever um texto semelhante a estes escritos. Sofreu represálias, foi duramente ameaçada e, por castigo, voltou a viver no Chile, com o marido, de onde nunca mais saiu.

São eles apenas alguns dentre os muitos brasileiros expatriados e hoje tornados chilenos em vista dos filhos e netos proeminentes.

Em verdade, para muito além da luz do fim do túnel, buscam-se e verdadeiramente são encontrados os raios do sol da felicidade, mesmo que estes se façam brilhar em lugares tão distantes da terra natal, infelizmente.

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*Escritor. Autor do romance 
O INVERNO DOS ANJOS DO SOL POENTE, disponível (in box) no https://www.facebook.com/claudio.porfiro>

 

Fica ligado

Quem em seus primeiros passos de relacionamentos não se submeteu as artimanhas da pessoa que desejamos para chamar de nossa? Quantas vezes passamos a mendigar sentimentos pelos outros? Dependendo do cidadão de carenciolândia, o sintoma se estende por mais tempo.

Mas tenhamos calma meus caros amigos, na maioria das vezes esse sintoma de humilhemos ao ser amadius termina com a troca de fase na vida. Na sua maioria isso ocorre na passagem de pré-aborrecente com juventude inexperiente. Mas para esse mal existe tratamento, inclusive nas redes sociais circula uma entrevista com aquele que destacava, que Clo era para os amigos e Vil para os desafetos. Sim, estou falando de Clodovil.

Esse vídeo passou a ter mais evidencias nos últimos tempos de chifre desenfreado, quando não se é amado pelo ser desejado, e em seu conteúdo ele dá um choque de realidade na moçada, na rapaziada e afins, que não se deve mendigar por sentimentos. Ainda mais sentimentos não correspondidos, onde por vezes, o ser não correspondente usa para as maiores tramoias em se beneficiar ao amador inexperiente.

A se esse jovem escriba fosse narras suas desventuras em série por corações não correspondidos, no final você me daria um sacolão de tanta pena ou ficaríamos bêbados juntos. Que horror! Graças ao bom Criador da humanidade, essa faze passou.

Mas um alerta para você que brica com sentimento alheio e para você que se encontra na condição de rastejar por um amor irreal e não correspondido. Pessoas que passam por essa experiência tem forte tendência a criar facilidades a sair dessas situações após adquirir breve experiência. Este que lhe escreve tem a mesma facilidade para desgostar de quem ele gostou ao identificar que não existe futuro naquela costela da criação.

Se você pretende se aventurar com possíveis relacionamentos passageiros, deve se estabelecer que não é nada mais do que uma aventura, uma vontade carnal, algo que esteja combinado entre os dois. Mesmo entre amizades coloridas que envolva o assunto de penetração, deve existir regras. Do contrário o primeiro que quebrar o acordo, veste a roupa e vai embora!

Tudo isso que coloquei não é algo pessoal, mas a realidade atual, onde ninguém sabe mais o que é relacionar-se com o ser amado e fazer planos de envelhecer juntos. O amor está na moda e na horizontal, mas não na vida real. Que possamos sair do mundo virtual e irmos no velho cara a cara e na conquista tradicional. Não é brega ser piegas, mas o jeitinho antigo funciona legal.

Nada melhor do que amar e amado ser. Viva o amor (use camisinha)!

Victor Augusto N. de Farias

Jornalista

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CLÁUDIO MOTTA-PORFIRO*

Vivi e vi por aí afora gentes e pessoas. As primeiras estavam sempre acordadas, vibrantes e aguerridas, e as segundas sempre a quase dormir, como se não fossem deste plano material. Enquanto muitas vêm para a vida cheias de atitudes, como se estivessem em um folguedo, ou em um campo de batalha, outras se entregam a um ostracismo e a uma apatia que as tornam quase androides. São estes seres, letárgicos e sem ritmo, que vivem e morrem e não ouvem as notas e os tons da sua música, porque nunca se atrevem a tentar.

A irmã mais velha, hoje falecida, fazia parte do primeiro grupo, mas ia muito além e exagerava nas doses gerais. Exasperada, diuturnamente, tinha sangue no olho e os óvulos no pé da goela. Por pouca coisa, ia a mão ao pé do ouvido e a joelhada no baixo ventre. Era valente, brava, destemida e, nos seus cabelos alvoroçados, se assemelhava, no mais das vezes, ao siri dentro da lata.

Nos anos quarenta do século passado, apareceu na cidadezinha uma família de sertanejos vinda do Ceará. Era gente de pouca ou nenhuma posse. Traziam às costas uns sacos miúdos com alguns trapos e muita vontade de vencer a fome. Arrastara-se em navios fétidos desde o sertão brabo da Meruóca. Iriam trabalhar no seringal São Pedro. Mas uma filhinha

– Maria – de pouco mais de dois anos, estava a atrapalhar os planos, segundo eles.

Apiedada, uma senhora também cearense, viúva, resolveu ficar com a garotinha morena, cabelos rebeldes e olhos faiscantes. O lar era pobre mas, segundo o povo nordestino, onde come sete come oito e até dez. Pronto. A menina agora tinha uma nova família.

No tempo certo, a guria foi colocada na escola de primeiras letras, onde se houve muito bem, apesar das arengas quase diárias que arranjava com as demais crianças. Evoluiu a olhos vistos e logo-logo concluiu o curso primário, o ápice dos estudos naquela época e naquele lugar. Lia de carreirinha e fazia contas. Criava e dizia versos de cordel em público, e cantava feito a patativa no amanhecer do dia. Uma voz em tom alto e bem postada inebriava e encantava quando a agora mocinha imitava Elizete Cardoso e Ademilde Fonseca. Era aplaudida pela vizinhança e, em seguida, por toda a comunidade quando, no estúdio da rádio da cidade, nas noites dos sábados e domingos, sua voz ecoava pelo passeio público a partir de um alto-falante colocado no alto de uma palmeira. Realmente, ela emocionava.

Mas o sangue quente era teimoso e vencia os conselhos que lhe davam os mais velhos em casa e na escola.

Um dia, da janela de casa, ainda manhãzinha, ela desacatou, aos berros, uma vizinha que resolveu repetir música que ela acabara de cantar:
- Sua negra excomungada. Sua filha de uma puta. Aprenda a cantar sozinha e não fique me imitando. Se fizer mais uma vez, eu vou aí dar uns catiripapos em você e lhe partir a cara, sua vadia!

Ela era ignorante até as tripas e por natureza, mas o que acirrava os ânimos era que, naquela época, as divas do rádio – Inezita Barroso, Dolores Duran, dentre outras – atingiam o brilho máximo no leste do País.

E tudo ficava mais tenso quando, em seguida, vinham as campanhas eleitorais. Num desses anos, a família tornara-se aficionada por Jânio Quadros. Os partidários de Lott faziam paródias escrachando os adversários. Por seu turno, ela fazia respostas nada carinhosas. Pessoas deixavam de passar na calçada da casa, porque a Maria soltava os cachorros e ia para o tapa se alguém a encarasse. Mas todos a temiam, com a aquiescência da avó que também não dispensava uma boa confusão.
Tornou-se conhecidíssima na comunidade através da arte e da valentia.

Bem miúdo, ainda de braço, o irmãozinho mais novo era levado a passear com a Maria. Moreninho sorridente e bonito, levava as pessoas a fazerem elogios:

- Que moreninho bonito, Maria! – Ao que ela prontamente respondia:

- Beije aqui no cuzinho dele, que é pra não pegar quebranto.

A avó dava-lhe reprimenda relativa aos palavrões e ela arrematava:

- Não dou nem o cu pra cheirar que não é rosa.

Era um Deus nos acuda. Insuportável, a moça.

Noitinha do início dos anos sessenta, acercou-se da casa da avó um moço bem trajado, que veio com o fito de pedir a Maria em casamento.

Tudo foi acertado. Havia amor.

Ele era um homem que sabia muito, mas falava pouco. Nunca foi eleito deputado por ter essas duas terríveis virtudes. Tornou-se, então, um embarcadiço de alta competência. Casaram-se, enfim, e foram felizes, ou quase.

Um dia após o casamento, ele foi enviado à cidade vizinha, em busca de um carregamento de castanha, em um batelão. Viajaram por toda a noite e chegaram no Domingo cedinho. Ele se ajeitou todo e subiu o barranco para dar uma volta, enquanto a Maria aprontava uma galinha caipira no sangue como só ela sabia fazer. E deu dez da manhã e ele não voltava. E deu onze e deu doze. Lá pra uma e meia da tarde, ela resolveu subir. No primeiro boteco, já divisou o amado balançando feito cuia de cego escorado no balcão, bêbado que nem um gambá. Providência inicial foi desafivelar o cinturão do cabra. Em seguida, ele teve que descer o barranco debaixo de peia. Mas muita peia. E ele caía, e tome-lhe peia.

Passaram-se os dias e vieram dois filhos. Circunstâncias especiais promoveram uma transferência de domicílio para o Rio de Janeiro, mais especificamente, para Morro Agudo, o bairro da cerveja Brahma, onde um irmão dele, marinheiro de profissão, residia. Mudaram-se, depois, para Guadalupe, o logradouro carioca, e tiveram mais cinco filhos.

Soltar pipa era a arte do menino do meio. Uma delas veio a cair em uma propriedade murada. Ele pulou o muro e trouxe o brinquedo. De lá, da janela da casa, um homem o chamou de negrinho filho da puta. Não deu outra. A Maria ouviu e, de posse de um terçado daqueles grandes, foi para o meio do asfalto de onde desafiou a rua inteira. Ela roçava a arma no chão e as faíscas saíam em abundância. Era um Domingo de manhã. Os vizinhos se fecharam em casa e ninguém mais saiu por todo o dia.

E estes são meros esboços de apenas algumas peripécias da Maria. Há muitas outras, claro. Tratava-se de um espírito indômito e raivoso.

Tudo aqui está escrito da forma que está, tão somente porque ela é hoje falecida. Do contrário, o pau iria quebrar. Levantar-se-iam labaredas e rios de sangue haveriam de correr, porque, segundo a nossa prestigiada sertaneja, o pau que bate em Mané é o mesmo que bate em Manduca, como nos tempos do sertão.

A avó era também minha e Maria era a irmã mais velha muito amada.

Que Deus lhes outorgue o merecido descanso!

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CLÁUDIO MOTTA-PORFIRO

E lá estava o menino esquálido moreno calçado em arreatas de couro cru. Fazia parte da indumentária, ainda, uma espécie de gibão de estopa amarrado rente aos quadris por uma corda de algodão, e um chapéu triangular estilo Peter Pan. Ao longe, montado na última nuvem do horizonte azul clarinho, vislumbrava vales, lagos, rios, florestas e montanhas espalhados pela vastidão dos continentes. A luneta mágica, feita a partir do dente serrado de um mastodonte, fazia-o ver, ainda, a parte mais ao sul, muito além do mar depois apelidado vermelho. Lá mais adiante, ainda, divisava o grande deserto a perder de vista. Um lince e os seus olhos poderosos jamais conseguiria ver tão longe.

E já escorriam, lentamente, por entre os dedos de rabo de calango, cinco ou dez milênios. Pessoas iam e vinham. Não mais olhavam para o chão meio que, insistentemente, sempre à procura de algo. Agora, andavam com a cabeça erguida e o peito estofado com os olhos postos lá muito adiante, onde o cão perdeu as botas e farejou muita riqueza. Eram todos negros e se conduziam em bandos sempre e cada vez maiores. Uns permaneceram na terra original, a região dos etíopes. Outros empreenderam a grande travessia marítima. Encontraram, então, pessoas de tez esbranquiçada, os arianos, com quem ocorreu a miscigenação de raças de onde resultaram homens e mulheres da depois denominada cor de oliva. Surgiam aí os morenos, um dos sete povos que habitaram a terra depois da chuva mais torrencial de que se tem notícia, o dilúvio.

Não eram exatamente vagamundos, ou nômades. Os que assim desejavam comboiavam em frente. Iam-se em busca de novos horizontes. Alguns iam ficando e se situando onde melhor lhes aprouvesse. A terra mais cultivável. A água mais pura. As florestas mais densas. Os demais seguiam adiante. Agora, já estavam a ultrapassar as cordilheiras do Iêmen no rumo norte. Uma raça teimosa.

Muitos iam se estabelecendo no decorrer da grande caminhada. Já plantavam e colhiam; matavam animais de pequeno e médio porte para o suprimento proteico. Ficava difícil matar um elefante com um machado de pedra, e muito menos um bisão mais forte que a trovoada dos infernos. Desbravavam a Terra inóspita por regiões onde nenhum humano, antes, houvera pisado. A função desses nossos primeiros avós era, simplesmente, povoar os rincões do mundo por onde iam passando. Interessava, pois, fazer menino mais a torto que a direito, por cima da garranchada, ou arranhando as costas ou cotovelos das mulheres nas pedras, feito água de ladeira abaixo, ou fogo de morro acima. Esses fabricantes de crianças seguiam em frente, sempre, ou iam ficando com o intuito único de marcar território por onde o bicho homem ia passando. Era importante deixar o rasto nem que seja de maldade, porque ninguém nunca foi santo. Nem a Eva, e muito menos o desencorajado Adão.

E tudo realmente aconteceu ao longo de quarenta e tantos milênios. Era tempo demais que não podia ser jogado fora. Nada de descanso. Nenhuma trégua. Ah, os humanos. Importante era seguir e seguir sempre adiante em busca das últimas fronteiras onde elas estivessem, onde nunca estavam, posto que, só muito-muito depois foi que descobriram que o planeta é redondo feito um coité. Concluíram ainda que, por aqui, neste rés de chão da história dos primatas esclarecidos, há mais água que terra, e muito mais mesmo.

Ao longo de uns seis mil anos contados nos dedos, mais de um milhão deles agora haviam ultrapassado a cordilheira do Himalaia e o planalto tibetano. Já, então, o contato com o gelo, devagarzinho, foi fazendo com que os olhos dos morenos fossem ficando mais puxadinhos. De tanto apurarem a vista no rumo do branco das geleiras e da neve aos seus pés, apertavam as pálpebras e estas foram tomando uma forma bem mais horizontal. Eram da cor de oliva pela mistura entre arianos e negros. Os olhares ficaram oblíquos porque o brilho esbranquiçado lhes fazia doer o globo ocular. Um dia, o menino esperto moreno calçado em arreatas de couro cru houve por bem chamá-los índios. Não sei de onde ele tirou essa marmota.

E a poeira do tempo sufocava a Humanidade. Séculos sobre séculos. Milênios sobre milênios, e muitos instrumentos foram sendo inventados no período entre a pedra lascada, a pedra polida e a pedra que passou a matar os desafetos. O sangue começou a correr da ribanceira abaixo aos borbotões. Os sentidos humanos se tornaram cada vez mais densos, tensos, corrosivos, repulsivos, invejosos, escabrosos, ciumentos e com sede de poder. A paz havia ficado nos milênios anteriores. Estamos em guerra. Sempre estivemos. Estaremos amanhã, certamente.

O menino via tudo lá de cima. Um dia, então, seria a sua primeira vez. Desceria de uma das galáxias quaisquer para também gerar crianças, como faziam os outros entes do gênero masculino. E ele veio para a Terra. Pintou e bordou. Fez e aconteceu. Chutou o pau da barraca. Fornicou com todas que viu pela frente. Não deu sossego a si nem a ninguém. Durou por aqui vinte e sete longos anos. Ficou velhinho antes dos trinta. Não podia viver mais que isso, pois as condições não permitiam ir adiante. A natureza madrasta fez com ele o mesmo que fez com os outros. Como todos, nasceu sem dentes, com as unhas moles, não sabia andar e muito menos correr, nem se alimentar. Mas ficou rijo que nem um mastodonte e craque nos caminhos do sexo selvagem. Deixou mais de quarenta filhos entre as estepes caucasianas, a região do Alaska e as montanhas canadenses. E dele foi a primeira vez que se materializou enquanto humano mais carne que osso. Teve competência e se estabeleceu. Pena que rolou de uma encosta gelada, deu um contrapé nos galhos de um pinheiro, quebrou o pescoço e foi comido por um urso pardo de duas toneladas e alguma coisa a mais.

A experiência humana na Terra, em verdade, não é coisa deste mundo dos homens sãos de cabeça. É preciso ser exatamente maluco para, sem nada com o que se defender, enfrentar a natureza inóspita, os animais famintos e o bicho homem sempre de tocaia. Como deixou muito bem anotado o senhor Agostinho Silva, português, uma aventura só tem valor na medida em que é mais e mais perigosa. Se não, é melhor não sair da zona de conforto, ficar em casa e tocar a rede pra frente e pra trás a cada empurrão que o pé dá na parede.

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*Escritor. Autor do romance O INVERNO DOS ANJOS DO SOL POENTE. Membro eleito da Academia Acreana de Letras.

CLÁUDIO MOTTA-PORFIRO

Naqueles dias, caminhávamos à toa, em delírio esfuziante, absortos e em observação plena direcionada à roda da vida a girar levemente, vagarosamente, indolentemente, mas ininterrupta e precisa e cruel e contínua, embora não o percebêssemos. Tínhamos todo o tempo do mundo e a vida sorria às gargalhadas, enquanto volteávamos na praça pública sonhando com a felicidade de braços dados ou não. Éramos felizes, sim, apesar dos dias não serem os melhores em se tratando da pacificidade do mundo aos nossos pés. Como sempre, as guerras. Ah, a crueza do Vietnã!

Abismados ante todas aquelas novidades que surgiam e ressurgiam a cada esquina, a cada momento da vida, caminhávamos céleres ou vagarosos, a depender da estação do ano. Embebedados pela história do tempo envolvente, ficávamos boquiabertos em face do domínio da história contemporânea por parte de uma professora de descendência libanesa que falava sobre Israel, Índia e China com uma destreza impressionante, como se lá vivesse. Também o outro professor, este de origem portuguesa, sabia tudo, desde os hebreus aos visigodos e às carnificinas ocorridas nas savanas canadenses de outrora.

Mais tarde, depois do futebol de grande qualidade, em casa, perguntas dilacerantes eram feitas ao vazio das consciências tão vagas:

– É este o mundo que os nossos sábios ancestrais nos deixaram por herança? Quem organizará toda essa bagunça? A paz será possível algum dia? Quando, enfim, virá essa tal era de aquário da bonança e da prosperidade? Valeria à pena, realmente, levar a vida tão a sério?

Vinha a noite, então. Depois, era chegado o período da folga semanal. Os sábados e os domingos acercavam-se a todo vapor para a imensa alegria de alguns ou de muitos. Tudo o que ouvíamos no colégio das freiras era guardado nas pastas de couro cru, em sua maioria, posto que, àquela época, ninguém ainda portava mochilas coloridas e muito menos bolsas Victor Hugo ou Louis Vuitton. Nem em sonho.

– Então, vamos aos folguedos! – Era o que pensava o pretenso poeta.

Os grandes bailes da feliz cidade eram organizados pela sua pequena e aguerrida burguesia dos confins do mundo, já na subida rumo aos Andes. Enquanto os mais abastados rodopiavam ao som de conjuntos musicais de uma qualidade considerável, os demais, nas janelas do clube, apenas se acotovelavam para apreciar os pares dançantes.

O menino, entre sossegado e curioso, estava ali pelo meio, aos trambolhões, à janela, com a mãe e a avó materna ranzinza. Segundo elas, aquelas pessoas que, do lado de fora, apreciavam os pares dançantes no salão, estavam participando do sereno da festa. Era assim mesmo. Talvez em algum momento ainda seja, quem sabe, apenas na cabeça e nas vertigens dos sonhadores.

A cidade princesa sempre foi sutil e arrebatadora. Como diz a bela Ofélia moça distinta e prendada do ramo das leis:

– Eu saí de Xapuri, mas Xapuri não saiu de mim.

Um dia, enfim, o moleque maquinador, aí pelas dezesseis voltas, fez a estreia nos salões requintados entre os burgueses rodopiantes e bem trajados, apesar de não ser um deles. Nunca. Nem era tão necessário. Talvez, por ser filho de gente pacata, mas ordeira, de lá ele nunca foi expulso. Muito pelo contrário, algumas vezes, fez par com moças que debutavam, ou com algumas que se candidatavam a rainha das flores, no grande baile do mês de maio. Havia efervescência cultural e as ocorrências sociais eram sonhadas até que chegasse o período de Momo e o rancho carnavalesco, quando uma turma grande saía às ruas do meu pequeno principado usando máscaras e trajes muito apropriados para o período.

Depois, viriam os quarenta dias da quaresma até o grande baile de aleluia, o enterro do carnaval. (Somos também brasileiros e tudo é justificativa para uma farra megalômana.)

Foi por este tempo que ele passou a sofrer as primeiras dores do amor infanto-juvenil. Ficou apaixonado por uma meia dúzia das ninfetas, ao mesmo tempo. Eram muito belas e provenientes de uma mistura étnica entre sírios, libaneses, portugueses e nordestinos do Brasil. Como escreveria mais tarde o poeta, bonitas por natureza.

Todavia, apenas uma, não tão bela, houve por bem conceder-lhe a graça do seu querer. Foram, sim, felizes, por uma longa semana, ou duas, ou três. Depois, veio a outra, bela e sensual, com quem um namoro quente foi engatado por uns dez meses. Era um tempo de boas colheitas naquele sertãozinho íntimo e úmido.

Os bailes foram ficando, talvez, mais empolgantes. Ia, agora, de braços dados com a namorada prazenteira e com a fortuna – a tão comentada sorte – sonhando com a delícia que poderia ser estar ao lado das outras, apenas uma por vez, em cada folguedo, é óbvio. Tornara-se, já, um volúvel cheio das regalias de quem é, antes, bastante simpático, bem cortês e pouco sedutor.

O soldo magro, de início, só permitia a ele a aguardente de cana em forma de caipirinha. Não era o crepúsculo, mas a alvorada dos deuses. Coisa boa demais da conta.

Daí, o salário aumentou e uma paixão imorredoura se abateu sobre o rapazola. Havia uma bebida de gosto imbatível elaborada a partir da cevada. Dela ele se enamorou e passou a consumidor pelo resto dos dias que ainda hão de vir. Que assim seja!

Gente da mesma idade sempre pensa melhor que qualquer mais velho. Esse povo ultrapassado e passado na casca do alho diz estar sempre com a razão; só que com a razão deles. Nós, os mais novos, vivemos um mundo novinho em folha, que não permite o ideário retrô desses que nasceram há um século. Cada qual no seu tempo. Eles já tiveram o seu período de contestações e maluquices. Deixem-nos fazer das nossas.

Pois bem. Pai, mãe e avó desaconselhavam certas companhias. Mas os pais de todos tinham o rapazola por um garoto de boa índole. Os responsáveis pelo aprendiz de poeta gostavam dos filhos do padeiro, dos do vereador, dos do caixeiro, dos do seringalista vizinho, e assim por diante. Assim, uma turma boa foi formada.

Na escola, haviam as discrepâncias de nível de conhecimento, posto que uns haviam se adiantado. Mas no futebol, metade jogava alguma coisa e a outra metade era formada por pernas de pau.

A idade de todos era mais ou menos a mesma. Foi assim que o grupo foi se acercando de uma mesa de refrigerantes, nos primeiros dias. Esta, em seguida – e não se passaram semanas – se tornou uma rodada de bebida destilada oriunda do país vizinho. Só no outro dia foi que apareceu a cerveja.

Um dia, então, junto com os demais da turma, meio desconfiado, o aprendiz de feiticeiro, foi a um ensaio. É que a filha do prefeito – belíssima! – queria que todos aprendessem a dançar.

Se as coisas iam bem, agora tudo melhorara muito mais. Beijaram-lhe a boca e ele se tornou poeta, numa alusão a Paulo César Pinheiro.

Quanto júbilo! Eram aqueles tempos de alegria e êxtase.

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*Escritor, autor do romance O INVERNO DOS ANJOS DO SOL POENTE. Membro eleito da Academia Acreana de Letras, Cadeira 18.