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O que é falso não convence, o que é forçado não agrada, o que é mentira não se sustenta.

FB_20140208_02_01_37_Saved_Picture.jpgSe pudéssemos nos olhar de fora, certamente nos sentiríamos envergonhados por alguns comportamentos nossos no dia a dia, sendo um deles a insistência que teimamos em nutrir em relação às pessoas erradas. Perdemos muito tempo esperando acontecer o que nunca ocorrerá e aguardando o retorno de quem nem se lembra de nossa existência.Criar expectativas é bom, até certo ponto, uma vez que elas alimentam nossas esperanças, nossos sonhos de vida, impelindo-nos a continuar, a não desistir. Esperar o melhor do que vem e das pessoas enche-nos de energia positiva que nos protege nas reviravoltas dolorosamente bruscas que a vida dá. É preciso esperançar, positivar, otimizar, ter fé, porém, um tanto de razão deverá sempre estar permeando isso tudo.Tudo o que exacerba os limites da razoabilidade acaba por ser infrutífero, em todos os setores da vida. Nesse sentido, um dos maiores favores que faremos a nós mesmos vem a ser a conscientização de que é inútil querer ser querido por todo mundo.

Ninguém agrada de forma unânime, simplesmente porque cada pessoa possui as próprias expectativas, ou seja, muito daquilo que oferecemos não corresponde às expectativas de várias pessoas.

Liberte-se da necessidade de ser querido por todos, isso é utopia. Para tentar conseguir isso, você terá que vestir várias máscaras por dia, de acordo com o ambiente em que estiver. Será preciso uma encenação teatral constante, enquanto se afasta mais e mais da sua essência, das suas verdades, daquilo que alimenta o seu coração.Aprenda a lidar com suas imperfeições, com suas limitações, com sua humanidade. É assim que a gente se basta.

 

O que é falso não convence, o que é forçado não agrada, o que é mentira não se sustenta. Fingir e dissimular só fará com que você deixe de manter junto aqueles que gostam de quem você era de verdade e deixou de ser para agradar todo mundo.

Mas, caso queira acabar sozinho e frustrado, continue tentando agradar quem não gosta de você. Nunca falha.

 

Marcel Camargo

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Já se haviam passado doze milhões de anos do início da grande marcha. Aqueles homens e mulheres de olhos oblíquos tiritavam de frio. O deslocamento, vagaroso e intermitente, atingiu, pois, a parte mais a leste da região caucasiana e das estepes siberianas. Eles buscavam chegar cada vez mais longe rumo a um oriente qualquer. Mesmo que alguns fossem se estabelecendo e abandonando a grande marcha, a cada período, a turba andarilha alcançava um novo ponto de chegada e de consequente partida. Um dia, enfim, viram um mar cinza, espesso e congelado.

O vento cortante assobiava e corria livre pela planície. Com a mesma velocidade, subia e descia as montanhas cinza azuladas e voava rasteiro acima do mar encrespado e sem beleza alguma. Apesar de sabedores das adversidades do ambiente, mais de quinhentas famílias por ali mesmo armaram tendas e passaram a domesticar e a criar ovelhas da neve. Daí, então, nasceram milhares crianças com o decorrer dos séculos. Foram estes os antecessores dos nativos mais tarde denominados chukchis.

Depois de cruzarem o rio Anadyr, a partir da península de Kamchatka, expedições de todo tamanho se aventuraram mar adentro e não tardou nem cem anos e já fizeram, enfim, a travessia para o continente hoje chamado americano.

O menino e anjo aqui conhecido como Zé das Arreatas via e tomava nota de tudo. Estava atento desde milênios. Era espírito insondável, mas cheio de sabedoria. Uma verve satírica tomava conta das suas anotações.

Então, começava o povoamento das américas. Os ricos já se sobressaíam, como se tornou óbvio pelas eras que se seguiram e ainda hoje demarcam a experiência humana na Terra. A soberba e a ambição começaram a se propagar. Poderosos se tornaram donos de uma terra que não era deles. Era dádiva da Criação.

É dessa época, pois, um relato segundo o qual um homem muito rico, de nome Wallychacktas, sisudo e desligado feito um camelo, encontrou um servo seu bastante pobre, de nome Lopodorus e, muito garbosamente, já foi tascando pergunta insólita:

- Ó, meu bom Lopodorus, estás muito magro, mas eu não me importo com isso, já que trabalhas só pela comida. Quero mesmo é saber como é que vai a sua prole. – Disse o homem rico conhecedor dos segredos da língua nativa cheia de traquejos. – Ao que o pobre empregado respondeu laconicamente:

- Ó, meu dono e senhor Wallychacktas. Louvado sejais. Folgo muito em ouvir o seu interesse em querer saber alguma coisa sobre esta humilde pessoa. Devo lhe dizer que a minha prole é pequenininha menor que um polegar, mas funciona bem e todo ano há berro de menino novo lá em casa. Eu e a véia já fizemos vinte e cinco filhos. Somos ricos de filhos. É uma coleção que dá água na boca de qualquer tabaréu.

De outra feita, era verão pleno e a temperatura andava aí pela casa dos dez graus abaixo de zero. Eis que o amo encontrou o pobre serviçal na confluência de dois campos de feno, nos territórios dos métis e dos inuítes, os povos mais antigos que habitaram a região do atual Canadá. A ceifa houvera sido prodigiosa, tempos bons eram aqueles em que nada faltava para os mais abonados, mas aos despossuídos, como sempre, sobrava esforço, suor e sangue derramado muitas vezes sem nenhuma razão porque, como sempre, a superior maioria dos soldados, no campo de batalha, luta sem nenhuma razão que os leve a exatamente compreender as guerras que empreendem, como no caso do país vizinho, onde a grande mídia manipula geral e diz quais caminhos os homens comuns devem trilhar, cegamente, feito o gado que vai para o abatedouro sem saber porque seguir por aquelas vias de fato que lhe significam o fim de tudo.

Então, o dono da colheita e dos demais seres das redondezas, ao ver a esposa do empregado tomar chegada, disse:

- Percebo que a sua mulher, meu bom homem, já está grávida do vigésimo sexto filho. Sei que todos são fortes e trabalhadores, com raras exceções. Vejo que os rapazes e as moças de mais idade também já têm os seus rebentos, o que dá um novo alento ao meu exército de escravos dóceis e saudáveis. Porém percebo que tens um bom número de filhos e deves refrear os seus ímpetos, sossegar o facho, congelar a libido e parar por aqui. Você fala que gosta muito do esporte e diz que não sabe como parar de fazer menino. Mas eu lhe digo que há saída bem interessante. Minha comadre, por favor, não seja besta e preste muita atenção: quando a senhora vê que o seu bom marido já está revirando os olhos, basta escorregar rápido, dar um passa fora e sair de debaixo dele. Pronto.

Ao que ela respondeu:

- Ora, meu amo e senhor. O certo é que o bode não desceu, a regra de novo falhou e eu estou buchuda mais uma vez. E olhe que não tem escapatória, não. Quando esse homem danado está revirando os olhos, eu já estou é cega, desmaiada, lascada, sem fôlego e a goela seca de tanto prazer, oxente!

***

Relatos rocambolescos à parte, importa é que a marcha ia prosseguindo. Séculos e mais séculos. Alguns dos caravaneiros dos milênios sem fim ficaram no Alaska. Outros subiram as montanhas canadenses e descobriram, do outro lado, um pouco mais ao sul, as florestas mais geladas da face da terra.

E a jornada milenar é eterna, porque a cada dia um novo interesse transmite incentivo, a ambição se revigora e move o humano em busca de mais aventuras que signifiquem lucros materiais. Daí foi que a anaconda, serpente gigantesca da Amazônia, foi se vingando aos poucos e, a cada bote que dava, comia de dez ou mais dos mais oportunistas.

Mas a terra era inóspita. Nenhum homem havia, antes, ali colocado os pés. E o rumo sul era agora o destino. Chegariam em poucos séculos às montanhas que ainda hoje se estendem desde o Canadá à Patagônia.

A partir do Alaska e Canadá, estava iniciado o povoamento das américas. Os primeiros habitantes, depois chamados índios, viveriam no seu habitat natural por vários milênios, mas, um dia, tudo seria diferente, porque aqueles que hoje se dizem donos da terra foram saqueando, matando e roubando sem dó nem piedade.

Então, o anjo, aqui denominado Zé das Arreatas, quando de um dos seus périplos pela terra, já estabelecido à beira de um rio caudaloso, nos sopés dos Andes, em sonho legendário, olhou para dois nativos da sua mesma etnia e tribo, e perguntou:

- Argandoña e Chacktas... Por quais trilhas aqui chegastes?

Ao que um dos irmãos respondeu:

- Também sou um anjo que, como tu, vem das primeiras eras da civilização. Enfrentei os grandes animais. Vi irmãos serem triturados por dinossauros e répteis voadores. Enfrentei mastodontes e gorilas apenas com um machadinho de pedra lascada à mão. Sou de um tempo em que todos tinham a pele azeitada e os olhos não eram tão oblíquos, ou amendoados. Só depois que atravessamos o mar no rumo do Iêmen foi que passaram a ser constituídos os sete povos que habitaram a terra dali em diante. Metade dos irmãos tomou o rumo leste e a outra metade tomou o rumo oeste. Foi logo depois da grande travessia que, pela primeira vez, eu vim ao mundo em missão especial. A tarefa era ajudar a povoar o planeta em órbita já há alguns milhões de anos.

Em verdade, ainda hoje assim caminha a humanidade, em busca de novas fronteiras onde as suas ambições possam ser cada vez mais e mais alimentadas.

Pra onde ides?

Oh, céus!

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Viajei por aí durante algumas semanas e, na chegada, fui ter com os melhores amigos do mundo, no boteco tão amado e fofo. A dor do parto, na superior maioria dos casos, é equivalente à alegria do regresso. Entre muitos rapapés, saravás e brindes diversos, a lambança correu solta perfazendo uma jornada total de quase oito horas, como se fossem dois turnos de trabalho exaustivo. À saúde!

Lá estavam o procurador chefe, o assessor jurídico, o clínico geral de não sei quantas especialidades, o engenheiro que dá luz, o poeta sem berço, o juiz cansado, o político falido, o desenhista sem arrimo, o camelô paraguaio, o escravo do jornal, o advogado falastrão, dois jogadores de sinuca no desassossego e, lá no fundo, a nata da rapiocagem fazendo uma batucada morna, mas de extremo bom gosto.

Eis, pois, que assomou à porta uma das reservas morais e indeléveis desta terra de muro baixo, como bem dizia o Barão de Itararé. Negrão alto, forte, espadaúdo, vestia a camisa da Beija Flor de Nilópolis. Cara de enjoado, atitudes meio bruscas, mas um amor de crioulo. Um bacana.

De longe, ele gritou, naquele vozeirão, apontando para mim:

- Dê cá um abraço, meu camarada, gente da melhor espécie. Como você está? Por quais praias esses pés lindos andaram? Quantos tonéis de chope você entornou?

Depois das mesuras e dos tapas nas costas que quase me estouram os bofes, ele olhou para a galera que observava o estardalhaço e a chegada triunfal, levantou as mãos fazendo o vê da vitória, e sapecou um grito:

- Eu gosto é de mulher!

Cabra bom esse Zezinho das Candongas. Ele estava com a garganta azeitada e, dali em diante, quase ninguém mais falou. A conversa estava sob o amplo domínio dele.

Depois de expor os seus pontos de vista, um pouco, acerca do futebol estadual, ele emendou no rumo do samba e passou a fazer digressões sobre as beldades que sairão como destaques no Carnaval deste ano.

- Meu Deus, meu compadre, as mulheres têm esse dom divino de deixar tudo bem mais iluminado. Daí eu consigo andar sem topar em nada e muito menos nas agruras da vida.

E fez emenda falando alto pra polícia perceber mesmo:

- Lá na residência, tenho deixado muito claro para a minha loura que nunca mais lavarei louça alguma, posto que, uma vez, num Domingo, fiz o serviço e ela o refez, quando pensou que eu havia pegado no sono. Percebi que a musa não gosta das minhas mãos pretas lavando a porcelana branquinha. A parte negra que ela mais gosta em mim é outra, e essa eu não digo.

No calçadão, pois, passava estonteante mulata descendo a Babilônia, o morro. O Senhor Candongas praticamente enfiou os olhos medonhos entre os seios da beldade. Em seguida, mirou a bunda miraculosa. Depois que ela virou a esquina, ele distorceu o pescoço e vaticinou:

- Peitos foram feitos para serem olhados e é isso que nós iremos fazer até o dia do juízo final. Democracia podre nenhuma vai mudar esse estado de coisas.

Entre um gole de chope e um arroto comedido, ele continuou a cantilena, agora, puxando a sardinha pro lado dos homens. O questionamento percebido por poucos era, pois, a famigerada tampa do vaso. Em casa, ele houvera dito há pouco:

- Bete, minha loura linda, você é uma menina crescida. Se a tampa está levantada, abaixe-a. Você precisa dela abaixada. Eu preciso que a cuja fique levantada. Você não me vê reclamando por que você a deixou abaixada. E olhe que eu conto com um metro e oitenta e seis de estatura e ainda disponho de uma longa coluna cervical que já enverga à duras penas.

Daí, chegou a Bete, uma beldade de lábios carnudos adornada por um par de rabo monumental. O discurso peremptório continuou. Ao contrário do que eu pensei, ela não o fez calar-se, mas fitava, embevecida e orgulhosa, os olhos e a boca do seu petroleiro.

- Coloca um chope para a musa dos meus versos. Minha ninfa merece brincar neste parque de diversões. – Disse ele apontando para si próprio. – Ela, por exemplo, sabe que o Domingo é o dia dos esportes. É a mesma relação que a lua cheia tem com as mudanças da maré. Deixe estar, ou me acompanhe.

A Bete está numa categoria de mulher que fica entre a subserviente, a mandona e a pacífica, e disse já entender muito bem quando O Zezinho fala que comprar não é um esporte. É necessidade. Mas ela dirige um carrão japonês do ano e anda vestida como uma rainha de bateria. Belíssima.

Também ela concorda, como sempre, quando o seu negrão apregoa, que choro de mulher e pura chantagem. Admite ainda que as belas devem dizer logo o que querem, sem rodeios, uma vez que, segundo o seu engenheiro Candongas, é preciso clareza. De nada adiantam as dicas sutis, nem as claras e muito menos as óbvias. Torna-se imprescindível ir direto ao fator. Quero isso, ou quero aquilo, uma vez que é sabido e garantido que sim e não são respostas perfeitas para praticamente todas as questões existentes nesta vida.

- Ora mais que essa! A Bete é uma psicóloga inteligente. Desde guria, com o pai, também funcionário da petroleira, aprendeu que é aconselhável falar com um interlocutor qualquer a respeito de um problema somente se ele quiser ajuda para resolvê-lo, ou se ela quiser ajudar a encontrar a solução. Isso é o que os homens fazem.

Foi quando ele pendeu para o setor cáustico da vida alheia, no que foi admoestado pela Bete, que franziu o cenho em tom de desaprovação. O Zezinho não ligou por haver sido chamado à atenção e seguiu em frente com a sua metralhadora giratória:

- O Amaral, aquele gordinho do exército, que mora na rua Anchieta, aqui mesmo no Leme, tornou-se extremamente preocupado com os azedumes da esposa, uma mulher que está mais na Missa que em casa. A Alzira vive de aspirinas. Toma mais comprimidos que come feijão. O mal humor a faz esbravejar, apesar da relativa prosperidade do casal cujos filhos estudam em São Paulo. Ele veio me falar de uma tal cefaleia crônica que perturba a esposa há um tempão. Daí eu tive que dizer que uma dor de cabeça que dura dezessete meses é um problema de saúde talvez grave. Se ela ainda não procurou um médico, é porque está gostando da doença, ou não está gostando mais dele.... Não estou certo, meu camarada?

À noitinha, nós nos cumprimentamos e cada qual tomou o rumo de casa. Ali estávamos desde o meio-dia. O cansaço já se abatera sobre a maioria dos convivas. Tomamos a saideira. Era a hora quase exata de zarpar.

Mais tarde, em casa, comecei a pensar em um negrão genial feito nós todos da cor: o Mandela dizia gostar de amigos com mentes independentes, pois estes tendem a fazer com que nós vejamos as questões a partir de todos os ângulos.

Assim é o Zezinho das Candongas. Bebe água de chocalho. Fala mais que a preta do leite. É mesmo do brado retumbante. Ele mal nos deixa colocar os problemas e já vem trazendo as soluções, em bandeja limpa e guardanapo passado.

Ele é bom.

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*Escritor. Autor do romance O INVERNO DOS ANJOS DO SOL POENTE, disponível (in box) no https://www.facebook.com/claudio.porfiro>

 

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Em verdade vos digo que viver por estes tempos modernos não é lá tão fácil, assim como não é tão difícil, principalmente, para humanos como este poeta amarfanhado, que tem dois ouvidos e apenas uma boca. À moda dos chineses, escuto muito e falo pouco, bem depois de ponderar bastante sobre qualquer coisa, principalmente, quando o interlocutor é parte constitutiva deste grupo fascinante por mim denominado belo sexo, ou divino gênero... Como elas são maravilhosas!

O contrário deste manobreiro de palavras é o Astrogildo Berimbau, uma alma penada e alienada que mantém comigo relações quase incestuosas. Viveu em Recife. Numa arruaça, em 1904, desceu a lenha numa meretriz e teve que sair à francesa com medo de peia. Foi, então, morar na Espanha, em Valladolid e, depois, em Barcelona, onde passou a ser jornaleiro. Adquiriu nacionalidade espanhola e, com a ascensão do Generalíssimo Franco, fez-se comunista. Numa madrugada de chuva fria, num beco escuso da Rambla, o bairro, tomou um tiro na cara e foi conversar com Deus, de pertinho, sem maiores problemas. Não tenho nenhuma pena dele. Primeiro, bateu numa mulher que queria apenas lhe extorquir. Depois, foi se meter em política logo no país dos outros e contra um ditador assassino histórico, furibundo e enfezado até as tripas.

Agora, como tenho de ir às segundas, às cinco da manhã, ao mercado dos peixes da experimental, ele me acompanha já a partir da ladeira e segue, por quase um quilômetro, ao meu lado, dizendo as suas pabulagens cheias de razão e de um cinismo caótico... Debochado até a medula!

Ver alma é uma arte que este poeta mórbido bem domina. Uma vez eu o vi ao longe em umas botas pretas de cano longo e roupas de bacana. Agora, ele simplesmente flutua e conversa sem mostrar do joelho pra baixo, ou nem aparece, mas fala ao meu ouvido num portunhol tosco e com uma voz de prostituta ou homem efeminado. Lembra muito a Xana da novela.

Ele me acha de uma paciência extrema e eu o sou, sim, principalmente, quando tudo se relaciona a essas coisas do mundo do lado de lá. É preciso muita calma nessa hora, certamente.

Na primeira segunda de 2019, ele estava frenético e crítico demais, como sempre, e saiu a fazer digressões sobre esta tal paranoia do amor em tempos bicudos. Horas depois de tanto refletir, findei por dar razão aos argumentos rocambolescos daquele espírito de porco.

Vejamos algumas das muitas razões defendidas pelo senhor Berimbau. 

O ser humano deturpou o juízo, estuprou a alma e perverteu o sentido do amor. A parcela de loucos aumenta a cada dia que Deus dá. A mentira faz morada nas relações mais sólidas, inclusive, em muitos casamentos duradouros. De repente, uma paixão extraconjugal, de forma avassaladora, desbota sonhos e faz a tempestade. Enfim, tudo rui.

Tudo isto é muito evidente nos dias que correm. O casamento civil é uma farsa montada a quatro ou mais mãos que já não pensam na vida a dois na realidade. Assinam um contrato cuja cláusula mais importante é o famigerado item que trata das posses. Os pobres optam, ou são levados a optar, pela comunhão parcial de bens. Ou seja, a partir do enlace, tudo o que for produzido pelo casal passa a ser dos dois, inclusive, a miséria e as dores de cabeça atrozes frutos das tormentas causadas pelas puladas de cerca, porque pular muros é realidade de uma outra classe social.

Entre os ricos - aí o bicho pega mesmo! - é mais corriqueira a comunhão total dos bens, inclusive, entra no jogo aquele apartamento que o noivo bacana mantinha enquanto garçoniere e para onde levava donzelas e damas ao tratamento terapêutico do sexo frugal entre quatro paredes. Uma pilantragem bem moderninha.

Depois de um ou dois meses, certamente, o pau quebra já na primeira traiçãozinha. Aí vem um rábula, que se intitula advogado, passa a perna nos dois e começa a fazer parte do casamento em pandarecos, uma vez que está disposto a levar tanta grana quanto os componentes envolvidos num processo cujo número de páginas ultrapassa ao da própria Bíblia, sobre a qual juraram fidelidade e amor eterno até que a morte os leve ao inferno dos infiéis, depois de trocarem tiros de madrugada, em frente ao motel Escort, na Avenida Niemayer. 

Há sempre interesses em conflito. Como anotou Caetano Veloso, a força da grana é que ergue e destrói coisas belas. Um está de olho no patrimônio do outro. Boa parte dos mais jovens, então, vê no parceiro amplas possibilidade de progresso futuro em vista da sua performance enquanto estudante universitário. 

Ora bolas! A inteligência mínima exige que eu não me case com uma pobretona. Seria o caos. Eu, Astrogildo, teria, sim, uma sócia no negócio do casamento que entraria sem uma ruela. Nada a ver!

Cá do limbo em que Deus me socou, sou levado a observar que, infelizmente, o mundo endureceu. Há a falta de diálogo. Já não se busca o ser diplomático. O jogo de cintura e a negociação harmoniosa são esquecidos por pessoas que gravitam ao redor do próprio umbigo. 

Aí, o espírito de porco se tornou exceção à regra, na Espanha, posto que era ladino, atacava pelos flancos cujas defesas estavam debilitadas, como Sun Tzu na Arte da Guerra. Conversava manso e franco, mensurava as palavras de forma a não chocar a distinta contendora. Pegava leve e com ternura, sim, e ponderava bastante as razões da interlocutora de forma a dar lastro para que ela pensasse nele apenas enquanto o Dom Quixote cavaleiro andante que realmente era, numa alusão ao Raul Seixas.

Depois de uns cinquenta passos meus, o Astrogildo usou a matraca e fez comparação porreta, bem ao modo do sujeito inteligente e sagaz que é ou foi.

Segundo ele, a economia enquanto ciência humana permite que uma jovenzinha de dezoito primaveras, sem arrimo e sem tostão, filha de pobre mesmo, viva um grande amor ao lado de um sessentão de bucho ostentoso, o que não é o caso do Buarque, que não tem barriga, mas tem uma mocinha que divide apartamento e alcova com ele no Quartier Latin, em Paris. 

Para esta alma idolatrada, é aceitável, sim, essas uniões hoje tão comuns, porque o dinheiro faz justiça e passa a ser distribuído de forma mais equânime quando gira em torno de quem é mais pobre, como a Marietinha, uma pós-adolescente que se casou com o Duque de Sevilha, de quase setenta voltas ao redor do sol.

É melhor o velhote dar a grana que ela merece do que guardá-la em aplicações financeiras que fazem a moeda rodar lá em cima, entre os interesses dos grandes conglomerados financeiros.

Aí ele fez pergunta cruel. Porque é que a Zuleidinha foi se apaixonar logo por aquele filho do Nabuco? Ela não viu que ele é apenas um sujeitinho pobre que nem Jó, que não tem eira nem beira e nem a rama da figueira. Mas se apaixonou por um vadio. Ele enfiou-lhe um bucho de goela adentro, se escafedeu e agora ela tá aí, sem estudo, quase pedindo esmola para sustentar uma família formada por ela e o filho de dois anos. Bem que o viúvo da esquina queria desposá-la. Ela agora estaria luxando e em passeio por esse mundão afora. Meteu-se com um zé ninguém e se estrepou na real.

É por estas e por outras análises bombásticas que eu me tornei fã ardoroso deste louco varrido que, em vida, passeou com o pomposo nome de Astrogildo Berimbau. A ele, as minhas saudações eternas! Depois nos veremos, assim que Deus o permitir.

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*Escritor. Autor do romance O INVERNO DOS ANJOS DO SOL POENTE, disponível (in box) no https://www.facebook.com/claudio.porfiro>

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A nossa atual realidade social e política já não permite algumas práticas que foram comuns em um passado não tão distante. Por força de várias circunstâncias a relação entre o governo e a sociedade mudou. Hoje o cidadão está mais perto do poder, e até compartilha deste, na medida em que elege um governante, fiscaliza a tomada de decisões dele no exercício do mandato, e eventualmente decide trocá-lo, através do voto.

Essa participação massiva da população no dia a dia da política se deu muito em função da democratização do acesso aos meios de comunicação, especialmente a proliferação das redes sociais. Hoje qualquer pessoa é um repórter em potencial, que pode registrar algo de interesse público, divulgar isso, e virtualmente concorrer de igual para igual com os grandes conglomerados de mídia.

Essa agilidade na disseminação das notícias pode ajudar o governo a tomar decisões rápidas, estratégicas, e em consonância com a vontade da população, que a expõe sem filtros nos meios digitais. Este fenômeno, no entanto, cria embaraços para veículos de mídia que ainda não se acostumaram com essa nova dinâmica, de ter que disputar em pé de igualdade espaços com o internauta anônimo, com o blogueiro, com o administrador de aplicativos de mensagem, com o repórter profissional etc.

Constata-se, de forma óbvia até, que a hegemonia da mídia acabou. Em todos os níveis, em todas as classes sociais, em todos os aspectos. Veículos acostumados a receberem vultuosas quantias de verbas públicas para fazerem mera propaganda política, disfarçada de conteúdo jornalístico, caminham céleres para a decadência. Estão acompanhados daqueles que se acostumaram a destruir reputações e chantagear figuras públicas em troca de dinheiro. Estas são algumas das práticas obsoletas as quais me reportei no início desta reflexão.

Ou seja, comportar-se como dono da verdade e pensar que se está acima do crivo da opinião pública não surte mais grandes efeitos em se tratando de informação, análise e opinião. É inócuo e contraproducente do ponto de vista da credibilidade. As pessoas observam, pensam, e tem ao seu dispor incontáveis fontes para efeito de comparação das versões que se apresentam sobre um mesmo fato.

O argumento mais forte que ainda usam para justificar tal comportamento, é a liberdade de expressão. Sim! Eles têm todo o direito de publicarem meias verdades ou mentiras completas. Mas as instituições e pessoas atingidas também têm esse direito! A liberdade de expressão é uma via de mão dupla, cujos limites são o respeito, a ética e a responsabilidade social. Mais isso os adeptos da manipulação não consideram.

A velha mídia, irmã da velha política, mostra sinais claros de abatimento, está se contorcendo, arquejando, urrando em uma crise de abstinência daquilo que não terá mais. E os que ainda a seguem vão ficando cada vez mais distantes do protagonismo na construção dessa nova realidade.  Não estão levando em conta uma verdade simples: informação de qualidade é mercadoria cara e rara, quem a tem, vence a concorrência.

Rogério Wenceslau é jornalista e porta-voz do governador Gladson Cameli (PP)

Escrito 

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É oportuno misturar fatos quadrados a personagens redondos. Há os que gostariam de uma análise, aqui, a respeito do fenômeno que representam as academias de ginástica e as suas relações com a modernidade. Há outros que cogitam a possibilidade de um comentário acerca das complicações posturais que surgem a partir de exercícios executados mais a torto que a direito. Todavia, como cronista deste chão batido, observo tudo com olhos de um hipopótamo vesgo que escondem por trás de si lampejos de uma crítica invariavelmente caótica.

Estou convicto, enfim. A vaidade é a base de tudo nesta joça de mundo. Ou somos vaidosos, ou não somos ninguém. O que interessa, hoje, é aparecer bem na foto. E há adereços, adornos e enfeites de todos os tipos. Vai-se de uma tatuagem na bunda siliconada, ou de um piercing nos grandes lábios, a uma roupa da melhor grife, ou a um carrão importado direto da Bolívia, não se sabe lá por quais meios lícitos ou ilícitos.

– Cheguei à boate Diesel, fui friamente calculada dos pés à cabeça pelos olhos mais cobiçosos dos rapazes a desejarem o meu rabo de sereia. Fui invejada pelas moças mais fúteis das faculdades tais. Abalei Bangu e adjacências. Tomei todas e sou feliz, apesar da ressaca que me come o espírito por haver comprado toda a minha indumentária, fiado, em boutique qualquer. – Eis um depoimento colhido por este observador.

Ela tem certeza de que faz o que faz porque é inteligente, o que a torna um poço de vaidades. Se, com a alma, que ninguém vê, acontece esse intrincado jogo de tira e bota; com o corpo, que muitos admiram e até sentem pelo tato, tudo é muito mais real, posto que visível e palpável.

Além de autoconfiantes e empavonados, todos nós nos esforçamos muito, a fim de nos tornarmos bonitos, de cara e de corpo, muitas vezes, infelizmente, não para nós mesmos. E é aí que mora o perigo de se gastar o que não se tem, ou de se tornar impermeável feito estátuas infladas por incontáveis botox.

Existe uma onda por aí que afirma que as mulheres se enfeitam não para os homens, mas para as outras mulheres, talvez suas rivais, que se matam de inveja umas às outras, simplesmente, porque o seu tubinho é brilhoso e o da vítima, não.

Assim como corre também por aí que uma mulher, em trinta segundos, na entrada de um baile, por exemplo, já vê trinta vestidos diferentes nas cores e nos realces. Enquanto um homem, de chegada ao mesmo evento, passa dois minutos mirando apenas uma única bunda, até que a amante de plantão o faz acordar do transe com uma boa dose de uísque que encharca a cara do salafrário. Bem feito.

Esta academia demais é como as suas congêneres. Há umas moças mui belas, outras talvez. Há aquelas que, por pura cortesia, cumprimentam a todos. Outras, as mais bonitas, empinam o nariz e sequer olham para algumas almas sequiosas. (Eu, cá de minha parte, nunca fui a favor de mulher bonita que anda falando com qualquer borra botas. Elas devem ser metidas mesmo).

Há uns rapazes raquíticos, enfim chegados aos dezesseis, mas com uma louca vontade de parecerem ter trinta anos. Essa é a classe dos sabiás, devido lhes serem finos os membros inferiores. Alguns dessa categoria tomam uns tais remédios que os veterinários usam para fazer cavalo brochar, mesmo diante das melhores mulas.
Há outros que têm pernas também atrofiadas e tórax iguais ao do Schwarzenegger. Esses são os gorilas espadaúdos e com cara de poucos amigos, a respeito de quem é melhor não fazer comentários mais detalhados, por uma questão de respeito que eles impõem na força bruta que os faz esturrar debaixo de anilhas que vão a duzentos quilos ou algo mais.

Pior é ver que, dentre os gorilas, existe uma parte significativa que, por mais que o treinador lhes fale sobre a necessidade de exercitar as pernas, eles nem ligam.

– Rapazes! As mulheres não gostam de braços grossos, nem de ombros imensos. Elas gostam mesmo é de pernas bem torneadas, instrumentos firmes e bumbuns arrebitados. – Era o que falava ontem, em alto e bom som, a professora bacaninha, psicóloga e maníaca sexual de uma academia periférica.

Dos tantos anos que tenho, metade deles vivi, praticamente, dentro de uma academia. Foi aquela moça, a Penélope Distraída, à época apenas uma dama de honra, quem me inseriu entre os cultores do corpo. Achou-me as pernas finas, os bíceps tenros, a bunda não dava um pastel, os ombros se encolhiam, dentre outros defeitos anatômicos apontados.

A partir daí, passei também a professar culto aos músculos, essa minha segunda igreja pequenina em frente da qual me posto, espada em punho, vaidoso, como todos, querendo achar beleza nas tantas vezes em que olho nos espelhos incrivelmente grudados em todas as paredes desta alma orgulhosa.

Sobre os espelhos, é preciso também observar que, nas academias, são como mares insondáveis a esconderem nas suas profundezas tanta vaidade e tanta beleza que os outros não veem, mas a vítima sente.

Lembro um sábio destes mais velhos, de sessenta e lá vai pancada, e brincalhão demais. Foi ele quem disse que os mais novos vêm para a academia para ficar mais bonitos. Os de certa idade, ao contrário, vêm exercitar-se para que, assim procedendo, possam morrer um pouco depois, ou mais tarde, quem sabe, com uns quinze anos de lambuja.

O arrojado nordestino é um outro analista de respeito. Foi ele o autor de uma das melhores tiradas por mim já ouvidas, enquanto descanso desse serviço pesado, que nós pagamos a bom preço, para que o capitalista nos deixe fazer força, até nos esbaforirmos em suores e desejos recônditos de nos tornarmos mais moços a qualquer hora da noite dos nossos sonhos juvenis.

– Professor, preste atenção! – Disse ele. – As mulheres só vêm para a academia depois que os maridos as deixam. Aí, a coisa já está quase na casa do sem-jeito. Às vezes, nem a faca do Pitangui será a solução. E nós, homens, só vimos pra cá quando as nossas mulheres já dobraram o cabo da boa esperança. Mas aí tem jeito. Hoje, seu moço, um bom punhado de dólares resolve até problema de virilidade.

Ao que eu respondi:

– Doutor! Os mesmos dólares, se gastos pelas mulheres, também podem comprar tanquinhos novinhos em folha, como foram os nossos abdomens antigamente. Ora pois!

O mundo, felizmente, carece de filosofia, mesmo que seja tão tosca quanto esses arrotos de sapiência. Mas é preciso pontuar que a vaidade e o orgulho são coisas diferentes, embora as palavras sejam frequentemente usadas como sinônimas. Uma pessoa pode ser orgulhosa sem ser vaidosa. O orgulho se relaciona mais com a opinião que temos de nós mesmos, e a vaidade, com o que desejaríamos que os outros pensassem de nós. Ali está o espelho.

Infelizmente, linhas tortas como estas são lidas por muitos, mas compreendidas por poucos. Afinal, estes tais que, como eu, frequentam as academias de malhação, não o fazem com a finalidade de exercitar a inteligência parca, mas para definir o futuro das rugas que um dia substituirão bíceps e glúteos hoje tão volumosos e saudáveis.

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*Escritor. Autor do romance O INVERNO DOS ANJOS DO SOL POENTE, disponível (in box) no https://www.facebook.com/claudio.porfiro>

 

 
Claúdio Porfiro

Fica ligado

Em uma megalópole como Rio Branco, onde a gente se encontra em uma esquina e duas quadras depois revê a mesma pessoa, haja encontros e desencontros. Alguns não tão graves, acontece, outros infinitamente dolorosos, que nos perturbam os sentidos, que fazem a gente maldizer os céus, os astros, o destino.


Fica tudo na base do “a gente se fala”... E adeus!

Não que fosse acontecer um casamento ou algo do gênero a partir daquele encontro, nada disso, mas foram encontros bonitos, fortes, que se acabam ali mesmo, na poeira de uma tarde fria, em um café da manhã, numa simples despedida.

“A gente se fala”. Pronto, sorteada a senha para o terror, o “never more”, o vou te dá um gato, ele tem sete vidas pra você infernizar.

Nada mais detestável de ouvir do que essa maldita frase. Logo depois a porta bate e nem por milagre ela se abre.

É jovens aspiras a 007, evitem essa sentença mais sem graça. Fofoletes em flor, esqueçam, esqueçam.

Melhor dizer logo que vai comprar o cigarro do abandono. Melhor dizer que vai pra nunca mais. Melhor o silêncio, o telefone na caixa postal, o telefone desligado, o desprezo propriamente dito.

A gente se fala um caceta. Seja homem, troque de palavras, use o código do bom-tom e da decência. A gente se fala é a mãe, ora, ora.


Como canta o Rei, “use a inteligência uma vez só, quantos idiotas vivem só”...


Esse “a gente se fala” deveria ser proibido por lei. Constar nos artigos constitucionais, ser crime inafiançável no Código Penal.


A gente se fala é pior do que a gente se vê por ai. Pior do que deixar ao acaso, que jamais fiz algo certo, deixando a saudade, que vira uma questão de azar e sorte.

Melhor dizer logo “foi bom, meu bem, mas não te quero mais”. NON VOGLIONO PIÙ, como no livro de poemas que ganhei no último aniversário de uma amiga de longa data. Dizer que foi bom meu bem e pronto, ficamos por aqui, assim é a vida, sempre mais para curta do que longa-metragem.

A gente se fala é a bobeira-mor dos tempos do amor líquido e do sexo sem compromisso. A gente se fala é a mãe, aquela vaca, ora!

Seja homem, seja mulher, diga na lata.


A fila anda para os dois, jogue limpo.


A gente se fala. Então aproveita e vai olhar se eu estou na esquina, com teu coração de gelo de uma figa!


Como disse o cantor da Costa “mulher eu te peço um favor, rasque o samba que te fiz e sei que tens um novo amor... espero que sejas feliz”. Sem ressentimentos, mas a gente se fala!

 

 

Victor Augusto

Fica ligado

Por Paula Marques Tiveron e Rafael Azevedo*

 

A importância de uma correta transferência de imunidade passiva através do fornecimento do colostro e absorção intestinal das imunoglobulinas colostrais é reconhecida mundialmente. A mortalidade, morbidade e o menor crescimento de um animal mal colostrado, resulta em impactos econômicos negativos para a pecuária bovina de corte. Porém esse assunto ainda é deixado de lado por muitos produtores, tendo pouco estudos focados no bezerro de corte. As diversas revisões existentes na literatura científica sobre imunidade neonatal bovina referem-se quase exclusivamente a bezerras leiteiras. Apesar de associar-se a imunidade passiva igualmente a bezerros de corte e leite, os fatores genéticos, ambientais e de manejo, geralmente são extremamente diferentes, resultando em um estado imunológico diverso.

O colostro é a primeira secreção da glândula mamária produzida após o parto, sendo um alimento muito rico em nutrientes e outras substancias biologicamente ativas. Ele contém, por exemplo, carboidratos, proteínas, fatores de crescimento, citocinas, gorduras, minerais e vitaminas, sendo considerado a principal fonte de nutrientes para os recém-nascidos. Embora o foco seja a imunidade passiva em relação às imunoglobulinas, reconhece-se que no colostro contém uma grande variedade de outros fatores.

Diversos fatores poderão influenciar na produção de colostro, quanto a quantidade e qualidade. No geral, considerando que as vacas leiteiras são geneticamente selecionadas para a produção de leite, maiores volumes são esperados. Porém quando comparado a produção de colostro em vacas de corte multíparas e de vacas de leite primíparas, observa-se maior produção no primeiro grupo, refletindo o menor desenvolvimento da glândula mamária nas novilhas.

Apesar de poucos estudos quantificarem o colostro em vacas de corte, bem como relatarem a sua qualidade, observa-se influência do genótipo, paridade e nível de nutrição materna, no colostro. Estudos observaram que a indução de parto por duas semanas antecedentes reduziu a qualidade do mesmo em vacas de corte.

A ingestão de colostro em adequada quantidade e qualidade é essencial ao recém-nascido para o fornecimento de proteção imunológica durante as primeiras semanas de vida, até que seu próprio sistema esteja funcional. A absorção de anticorpos através do epitélio intestinal durante o período neonatal diminui com o tempo pós-parto e cessa após 24 horas. Sendo assim, recomenda-se que os bezerros de corte amamentem o colostro dentro de duas horas pós-parto.

Em relação ao manejo de colostragem, uma das diferenças entre os bezerros de leite e os bezerros de corte, é que no corte os animais permanecem e amamentam em suas mães, considerando que, normalmente, o bezerro leiteiro é removido de sua mãe logo após o nascimento e recebem o colostro de forma artificial. Comparado ao amamentar na mãe, a alimentação artificial tem benefícios, pois para o bezerro de corte conseguir ingerir colostro suficiente, ele primeiro precisa ficar em pé, andar, encontrar o teto da mãe e sugar, enquanto, simultaneamente, a mãe deve ter um bom vínculo materno com a cria, produzir um volume adequado de colostro com concentrações adequadas de imunoglobulinas e tetos que possam ser succionados facilmente pelo recém-nascido. Circunstâncias que afetam esses fatores comportamentais têm um impacto negativo na transferência de imunidade passiva em bezerros de corte, interferindo no desempenho do animal.

Normalmente, em bezerros de corte o tempo médio entre o nascimento e o primeiro bezerro a ficar em pé varia de 30 minutos a quase 2 horas; e o tempo médio para o recém-nascido amamentar sem assistência, geralmente ocorre dentro de 60 a 260 minutos, podendo variar em intervalos mais longos quando observados individualmente. Em rebanhos de bovinos de corte, com partos fáceis, sem auxílio, a maioria dos animais mamam dentro de 4 horas.

As recomendações de colostragem em bezerros de corte é frequentemente baseada em manejos modificados de fazendas leiteiras, e na maioria dos casos, isso é inadequado. Na pecuária leiteira, recomenda-se o fornecimento de colostro de alta qualidade equivalente a no mínimo 10% do peso vivo do animal, nas primeiras horas de vida. Algumas pesquisas já apontam que alimentar os bezerros de corte com 5% do peso vivo de colostro de alta qualidade via sonda esofágica dentro da primeira hora pós-parto, com subsequente amamentação na mãe, de 6 a 8 horas mais tarde, garante o sucesso de transferência de imunidade passiva. Ou seja, deve-se fornecer um bom aleitamento nas primeiras horas de vida do neonato, com acesso à mãe posteriormente.

Devido à dificuldade de quantificar e qualificar o colostro consumido pelos bezerros de corte, há poucas informações publicadas sobre a eficiência de absorção dos anticorpos. Porém sabe-se que bezerros de vacas mais velhas geralmente têm melhor estado imunológico quando comparado com vacas mais jovens, principalmente primíparas.

Pesquisas sobre os fatores relacionados ao manejo de colostragem interferindo na transferência de imunidade passiva em bezerros de corte são necessárias. Porém enquanto as informações são escassas, fica o alerta aos produtores para a importância do manejo de colostragem. O suporte e observação nas primeiras horas de vida é crucial para o futuro do animal!

Paula Marques Tiveron, é técnica de corte da Alta Genetics

Rafael Azevedo, é gerente de produto da Alta Genetics

Fonte: texto adaptado do artigo escrito por M. McGee e B. Earley, com o título “Review: passive immunity in beef-suckler calves”, publicado no periódico Animal de 2018.

Fica ligado

CLÁUDIO MOTA-PORFIRO*

A noite viria logo em seguida, naturalmente. Naquele momento, ao cair da tarde do sábado iluminado, ainda cintilavam alguns últimos e tênues raios de sol. Os fios de gelo, remanescentes do inverno, nas montanhas ao longe, se vestiam de uma tonalidade azul clarinha brilhante e amarelo dourado. O lugarejo era muito simpático e quase a sentir os ventos cortantes do Atacama. 

Tomada de uma certa dose de felicidade, ela fazia anotações para a elaboração de um livro que, muito provavelmente, seria intitulado coisas do brasil, em letras minúsculas mesmo. Os chilenos o leriam, aplaudiriam entusiasticamente e, sobre a obra, escreveriam ensaios e resenhas, com certeza, mas os brasileiros dele sequer jamais tomariam conhecimento. A mensagem transmitida pela incrível professorinha, de tantas qualidades e, por isso, perseguida e execrada, não teria eco no Brasil. No Chile, muitos dizem e garantem que os brasileiros mais pobres sempre detestaram os seus irmãos mais inteligentes, como Chico, Milton, Amado, Gullar, João Cabral, Caio Prado, Gil e Caetano, que vêm a realidade dos fatos de uma forma holística, mais geral e mais aprofundada. Segundo os de lá, a nossa gente vive uma ordem e um progresso irrisórios e medíocres a partir da origem colonial portuguesa. 

Nascida e criada na zona da mata mineira, lia tudo o que lhe caía nas mãos. Um dia, um escritor deixou gravado na mente da menina que as guerras e confrontos vencidos pelos pobres não podem ser difundidos entre estes, justamente, para que eles não tomem conhecimento da sua capacidade de indignar-se, rebelar-se e obter vitórias a partir do confronto com os poderosos, como ocorreu no Chile, quando da queda do sanguinário Pinochet.

No Brasil, então, segundo a professora, memórias e feitos verdadeiramente heroicos foram apagados da mente dos brasileiros exatamente porque os poderosos foram derrotados. Eles não querem que certos exemplos sejam seguidos. É por isto que poucos sabem a realidade dos fatos a respeito de Lampião, que não era tão somente um cangaceiro. Hoje, ninguém sabe que Antônio Conselheiro, em Canudos, derrotou o exército dos ricos em várias batalhas. Pouco noticiaram que os cabanos, gente miserável do Pará, venceram as forças do governo por cinco anos a fio. Os jornais dos donos do poder se encarregaram de minimizar o heroísmo real de Zumbi dos Palmares. Desconhecem que Emiliano Zapata, no México, derrotou a ditadura de Díaz. Ninguém fala que Sandino, na Nicarágua, enfrentou o poderio dos americanos. Não se tem mais conhecimento dos Panteras Negras, o partido negro que, nos Estados Unidos, iniciou a revolução contra os brancos ricos e escravocratas. Mesmo agora por último, a ação ecológica de Chico Mendes foi mascarada pelos fazendeiros que não queriam o seu exemplo copiado.

E a professorinha rebelde vai mais longe:

- Pior de tudo é que as memórias desses caudilhos pobres, hoje, são vilipendiadas, quando campanhas de difamação se erguem e os seus feitos são relegados a nada. As pessoas humildes passam a vê-los apenas como bandidos, porque assim os patrões o querem. Os heróis tão diminuídos levaram muitos prejuízos aos ricos em favor dos direitos dos menos favorecidos. Por isso, as imagens deles devem ser denegridas. As futuras gerações de desassistidos não podem saber que a força do dinheiro dos patrões pode ser vencida, se houver união de ações e propósitos por parte dos que sempre levam a pior na partilha dos resultados de um progresso que pertence a uma parcela minúscula de ricos que estão acima do bem e do mal.

Carmem, a bela professora, fizera graduação em Antropologia, numa grande universidade do leste do Brasil. Depois, os estudos avançados de pós-graduação foram feitos e orientados por ícones do pensamento brasileiro, como Paulo Freire, Caio Prado, Joel Martins e Marconi Montezuma. Karl Marx e Friedrich Engels, além de Gramsci e Sartre, dentre muitos outros, estavam na ponta da língua dos maiores estudiosos de então. Era preciso pensar a felicidade de todos e não a de uns poucos que se deliciam em pagar salários cada vez menores.

Segundo depoimento anotado e a ser publicado em livro por Carmem, um pequeno milagre aconteceu:

- Naquela época, fins dos anos sessenta e início dos setenta, a ilhota de excelência do interior paulista estava salvaguardada pelo reitor Zeferino Vaz. Médico conceituadíssimo em todo o Estado de São Paulo, fazia irradiar a sua competência pelo Brasil afora. O brilho da estrela era tanto que os militares, incluindo Costa e Silva e Médici, lhe faziam reverência. Em síntese, tratava-se de um intelectual de direita que conseguia dar as cartas a partir do seu feudo denominado Unicamp. Em contrapartida e em reconhecimento ao grande feito que foi a criação daquela Universidade, os generais houveram por bem deixar quietos os comunistas sob a proteção do Doutor em Parasitologia. Ficou célebre a frase de Geisel que autorizava aos carrascos da ditadura deixarem os meninos do Zeferino em paz.

Então, depois de defendidas a dissertação de mestrado e a tese de doutorado, a bela professora teve que voltar para as origens, levando as verdades apreendidas a partir do contato com os grandes mestres do pensamento nacional. Juiz de Fora, cidade mineira de vasta cultura, passaria, agora, a contar com mais uma colaboradora. Só que não.

Em dois meses, os militares fecharam o cerco e a bela teve que evadir-se levando consigo alguns alforjes cheios de revolta e a decepção por perceber que os seus irmãos de infortúnio ficariam entregues aos desmandos de poderosos que buscam tudo para si e muito pouco ou nada para os que precisam do básico, como comer, beber, vestir-se e residir condignamente. Em realidade, como ela anotou, os menos favorecidos índios, favelados, quilombolas, sem-terra, sem-teto, sertanejos e seringueiros jamais seriam citados, especificamente, nos programas político-partidários de nenhum grupo que diz os representar. Tudo falácia.

De posse de muitos diplomas e uma prática exemplar, a fuga se fez, inicialmente, até a fronteira do Paraguai, em lombo de mula e, depois, numa segunda fase, agora de ônibus, até Valdívia, onde um grupo de intelectuais banidos do Brasil a esperava. Em poucos dias, era designada a trabalhar como professora secundária em São Pedro de Atacama.

Logo de início, ela percebeu que o Chile tem vinte vezes mais livrarias que o Brasil, apesar de a população chilena ser vinte vezes menor que a brasileira. Eles leem muito e, por isso, não mais são enganados.

Carmem também anotou que a grande mídia, nas periferias ocidentais, como é o caso do Brasil, faz da arte apenas um veículo através do qual chegam apenas as verdades manipuladas que eles querem. Daí, a novela estupidifica, a mentira reverbera, a desinformação se alastra e a alienação produz o atraso das mentalidades.

Depois do período chileno, Carmem voltou à terra natal e houve por bem escrever um texto semelhante a estes escritos. Sofreu represálias, foi duramente ameaçada e, por castigo, voltou a viver no Chile, com o marido, de onde nunca mais saiu.

São eles apenas alguns dentre os muitos brasileiros expatriados e hoje tornados chilenos em vista dos filhos e netos proeminentes.

Em verdade, para muito além da luz do fim do túnel, buscam-se e verdadeiramente são encontrados os raios do sol da felicidade, mesmo que estes se façam brilhar em lugares tão distantes da terra natal, infelizmente.

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*Escritor. Autor do romance 
O INVERNO DOS ANJOS DO SOL POENTE, disponível (in box) no https://www.facebook.com/claudio.porfiro>

 

Quem em seus primeiros passos de relacionamentos não se submeteu as artimanhas da pessoa que desejamos para chamar de nossa? Quantas vezes passamos a mendigar sentimentos pelos outros? Dependendo do cidadão de carenciolândia, o sintoma se estende por mais tempo.

Mas tenhamos calma meus caros amigos, na maioria das vezes esse sintoma de humilhemos ao ser amadius termina com a troca de fase na vida. Na sua maioria isso ocorre na passagem de pré-aborrecente com juventude inexperiente. Mas para esse mal existe tratamento, inclusive nas redes sociais circula uma entrevista com aquele que destacava, que Clo era para os amigos e Vil para os desafetos. Sim, estou falando de Clodovil.

Esse vídeo passou a ter mais evidencias nos últimos tempos de chifre desenfreado, quando não se é amado pelo ser desejado, e em seu conteúdo ele dá um choque de realidade na moçada, na rapaziada e afins, que não se deve mendigar por sentimentos. Ainda mais sentimentos não correspondidos, onde por vezes, o ser não correspondente usa para as maiores tramoias em se beneficiar ao amador inexperiente.

A se esse jovem escriba fosse narras suas desventuras em série por corações não correspondidos, no final você me daria um sacolão de tanta pena ou ficaríamos bêbados juntos. Que horror! Graças ao bom Criador da humanidade, essa faze passou.

Mas um alerta para você que brica com sentimento alheio e para você que se encontra na condição de rastejar por um amor irreal e não correspondido. Pessoas que passam por essa experiência tem forte tendência a criar facilidades a sair dessas situações após adquirir breve experiência. Este que lhe escreve tem a mesma facilidade para desgostar de quem ele gostou ao identificar que não existe futuro naquela costela da criação.

Se você pretende se aventurar com possíveis relacionamentos passageiros, deve se estabelecer que não é nada mais do que uma aventura, uma vontade carnal, algo que esteja combinado entre os dois. Mesmo entre amizades coloridas que envolva o assunto de penetração, deve existir regras. Do contrário o primeiro que quebrar o acordo, veste a roupa e vai embora!

Tudo isso que coloquei não é algo pessoal, mas a realidade atual, onde ninguém sabe mais o que é relacionar-se com o ser amado e fazer planos de envelhecer juntos. O amor está na moda e na horizontal, mas não na vida real. Que possamos sair do mundo virtual e irmos no velho cara a cara e na conquista tradicional. Não é brega ser piegas, mas o jeitinho antigo funciona legal.

Nada melhor do que amar e amado ser. Viva o amor (use camisinha)!

Victor Augusto N. de Farias

Jornalista