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CLÁUDIO MOTTA-PORFIRO*

Um carma se apoderou da alma do aprendiz de analista. É assim desde os primeiros séculos desta era de promiscuidade e conurbação de sentimentos. Os ancestrais masculinos foram nascendo e se desenvolvendo de olhos vidrados na trilha da gatunagem e da malversação, num país onde tais práticas são mesmo corriqueiras. Enquanto isso, com as fêmeas, as coisas vão sendo tocadas na marra, na maioria dos casos amparadas pelas sombras da noite, e as finanças às vezes regurgitam nos desvãos dos pares de coxas que se abrem e pouco se fecham, ou no vai-e-vem dos quadris de quem quer que seja, numa alusão ao Cazuza. Uma loucura.

Estava na caixa de entrada escrito Tia Berta. E ainda não era abril, mas a temporada de caça ao corvo dourado estava aberta.Pensou que ela já tinha sido encontrada por uma bala perdida, posto residir em área de alto risco, bem próximo do Alemão complexado. Estremeceu dos pés à cabeça. O medo de calote dos parentes desanima as almas mais virtuosas. Trata-se de uma raia miúda, sem escrúpulos, que busca sempre passar a perna nos demais seja na posição que for, ou naquela que melhor aprouver.

Estupefato total com a surpresa daquela manhã, abriu o e-mail e, como um chiclete velho, foi mastigando, enfastiado, a contragosto, cada palavra da correspondência eletrônica que lhe foi enviada pela parenta. Uma intimidade pai d'égua.

Ela reclamou da vida aos borbotões. Falou das dívidas eternamente crescentes, do cartão de crédito e da conta bancária sempre no vermelho. Chorou um rosário de pitangas em lágrimas de crocodila. Maldisse o dia em que foi dada à luz, lá nos sopés esverdeados dos Andes. E tome chorumela.

Depois de relatar que o filho, o priminho Charles De Marco Bezerra de Albuquerque – empresário de negócios sujos e mão aberta, rei dos morros da Providência e do Juramento – continua foragido nas Ilhas Galápagos, no Pacífico, contou que está perdidamente apaixonada por um boyzinho de vinte e seis anos, o Blau-blau de Vigário Geral. Ela, de sessenta e poucas voltas, paga a ele um bom soldo, em notas de cem, uma em cima da outra, como se estivessem copulando, mas o fulaninho a deixa em polvorosa e se acompanha com uma maria trepadeira - segundo ela! - com quem vagabundeia em fins de semana que chegam a durar quatro dias. Dá-lhe, garoto!

Toda a correspondência passava dos quarenta kilobytes. Então, para sintetizar, a frase final da coitada da titia desesperada de Inhaúma foi a seguinte:

- Estou apanhando igual mulher de malandro. Eu dou amor, sexo, roupas caras, comida de primeira, carro, apê e grana. Ele me beija, me abraça, me lambe, me joga na parede e me chama de lagartixa. Depois, diz que eu sou a mulher da vida dele, mas se vai para ficar dois ou três dias na companhia da putinha de dezoito primaveras. E o pior é que eu morro de tesão e de medo de mandá-lo embora. Posso até cometer suicídio, viu?

Ao que o analista respondeu, já no dia seguinte:

- Pode, sim, titia. Use uma corda. Quem não pode com o pote não pega na rodilha. Quem pariu mateus que o embale. Puta velha mais rodada que o engenho da rainha não pode cair numa dessas. Um coroa sessentão, aposentado e carregado de comprimidos sintéticos azuis que ativam a libido, seria muito mais rentável. Você ainda tem borogodó. Mas gosta de cutucar o cão com a vara duríssima. Tome-lhe!

Beldade passada na casca do alho dos subúrbios paulistanos, década de setenta, minha tia tem um corpo ainda escultural, apesar das tantas voltas ao redor do sol, e dos fretes nem sempre a bom preço. Nem é preciso dizer que a alma fede a sexo apressado, medroso ou com raiva. Nasceu nos rincões longínquos mais ocidentais do Brasil e, ainda em criança, foi levada pelos pais para a àquela época denominada terra da garoa.

Bacana é que a Tia Berta adora postar nas redes sociais imagens de si própria em que os milagres malucos do photoshopenganam milhares de incautos e bêbados sem substância. Difícil é ouvi-la dizer que nunca usou filtros tridimensionais, e que ela, ao vivo, é melhor que nas fotos; que está ainda uma uva e nunca chegará a abacaxi. Carácolis!

Foi por intermédio dessas traquitanas cibernéticas que, nos anos noventa, ela engatou envolvimento com um advogado de altíssima linhagem. Paulistano rico e dado às armações e bizarrices jurídicas próprias dos grandes jurisconsultos brasileiros de porta de cadeia, muito bem cabia nele o adágio popular segundo o qual a diferença entre a prostituta e o advogado é que a primeira deixa de usurpar o cliente depois que este morre. Lindo.

O único filho, Charles - com o S chiando - nasceu no bairro calmíssimo de Francisco Morato e por ali foi sendo criado sem muito o que fazer, posto que escola não era do agrado de ninguém. Andou envolvido com uma moçoila de programa em Vila Carrão e teve um filho, ao mesmo tempo em que fazia estágio avançado em Capão Redondo com armas de pouco alcance. Depois, fez aperfeiçoamento em Ermelino Matarazzo, no grosso calibre, e, enfim, estava preparado para assumir o desiderato dos da sua estirpe ranzinza.

Foi morar na maravilhosa levando consigo Tia Berta. O mercado de trabalho sempre foi muito bom e ele passou a colocar em prática tudo o que aprendeu nas universidades da periferia paulistana. O empreendimento prosperou como chuva de outono. Armou, se deu bem e por ali viveu uns doze anos, até ser enxotado para as Galápagos, onde vive de renda com as subvenções do negócio pagas em reais ou dólares. O cara é bom no que faz. É ele o primo esperto, louro, com olhos, nariz e boca postiços, nascido e criado nas grandes metrópoles.

Em verdade, é preciso considerar as palavras do poeta e analista da vida alheia, segundo quem, aqui, nestas paragens tupiniquins, todos são ensinados desde muito cedo a contar regalia porque deu a loba em alguém. Na periferia, como na faixa onde moram os ricos, é praxe o pacato pagador de impostos se deparar com meninos, ou com meninas, contando vantagem sobre uma situação qualquer em que conseguiu tirar proveito em cima até mesmo da bondade de um ou outro que ainda tenta ou consegue fazê-la.

A grande maioria já nasce enquanto réplica e projeto de um contraventor ou criminoso qualquer que há de tirar proveito, notadamente, em cima do que não é exatamente seu. Vive-se, na maior tranquilidade, a prática de crimes corriqueiros mínimos e sem tanta importância, posto que, enfim, o ambiente é propício. Por isso, poucos sabem e ninguém ensina os limites entre o lícito e o ilícito. Daí os pequenos corruptos crescem e a pátria se torna uma casa de mãe joana, com o respeito devido à vetusta choperia carioca.

Em síntese, temos fomentado e até aplaudido uma escola de contravenção e delitos de todos os naipes do baralho de cartas marcadas.

Convém lembrar, para fazer uma coroação à altura desses escritos disformes, o grande senhor Zweig, segundo quem, da mesma forma que ao bem ocupado não há virtude que lhe falte, ao ocioso não há vício que não o acompanhe. Ou, como se diz mais a nordeste, mente vazia é oficina da besta fera. Importa ficar rico, sim. Só não é preciso revelar os meios, senão a polícia sabe e vai querer o que lhe é de direito.

E vejamos no que deu. O advogado sumiu, uma vez que a coisa murchou. O boyzinho se foi, porque a fonte virou piada. Dólares não transitam do Equador – Galápagos – para esta pátria desamada. (Daqui pra lá pode, claro. Eles não são bobos.) A Tia Berta, então, de tanta abertura por esta vida afora, viu que a vida que ela pediu a Deus, enfim, deu adeus e o endereço do sobrinho é não sabido e jamais revelado.

Sem bater e sem fazer mesura, a miséria foi entrando pela porta da sala, enquanto a vergonha fugia pela janela da cozinha.

Cruzes! Jacarés que a comam em meio ao labirinto do pantanal!

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*Escritor. Autor do romance ANJOS DO SOL POENTE, disponível na Amazon.com>

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Dizem que todos os homens são iguais, mas se somos todos assim, por que as mulheres escolhem tanto?

Mas até certo ponto elas têm razão, muitos de nós ao ver uma mulher bonita, nos transformamos em insetos que ao olhar pra luz, deseja ter para si. Porem existem casos que nos fascinamos pela costela da criação no primeiro olhar, um gesto diferente ou que os franceses chamam de sei lá o que.

Esse foi um dos casos que aconteceu comigo. Era um dia quente comum, com um sol para cada acreano, quando fui até a clínica oftalmológica, onde iria conversar com uma amiga para fechar parceria ou convenio com a minha instituição.

Aguardei na recepção até liberarem minha passagem, me direcionaram a um elevador e como uma cena de filme, ele abriu as portas e lá tinha um anjo lindo. Ela devia medir 1,68m, cabelos longos e pretos, uma voz suave e tímida, assim como ela. As portas fecharam e não consegui para de olha-la até ser tomado de uma coragem e dizer o quanto era linda. Ela se escondeu por traz de um sorriso enquanto fechava os olhos.

Eu ria de minha própria pessoa ao não reconhecer a coragem que ali aflorou e sem perceber, já tinha criado o ambiente. Parecia uma adolescente, que precisava tocar nela e deixar um tipo de assinatura para o momento.  Tomei sua mão, dei um beijo nela enquanto a olhava nos olhos e ela tentava se esconder dentro de si.

Obviamente que eu queria saber quem era aquela moça. Minha amiga a descreveu e ao mesmo tempo me jogou um balde de agua fria ao dizer que ela tinha um namorado mala. Sim, ela tinha um NAMORADO. Ainda com a coragem no corpo eu disse que um dia seria minha, nem que fosse para ganhar um beijo.

Dali para frente, o destino foi ajudando, enquanto minha mãe olhava as verduras, fui atrás de um doce e quem encontro no corredor?! A moça do sorriso, que me viu com espanto enquanto o namorado ia comprar sei lá o que. A cumprimentei e pouco besta como sou, roubei um beijinho. Eu admito, fui safado (mas nem sempre), mas como disse, eu me encantei por ela. Depois disso e me julgar, perdemos o contato.

Porem um belo dia, minha amiga e informante disse que ela estava solteira, que deu um pé na bunda do jovem carniça. Imediatamente o piegas aqui entrou em ação e mandou um buque de rosas com um cordão. Acho que foi bem aceito, saiu comigo ainda um bocado de vezes. Agora estou passando por uma análise curricular para saber se vai dar namoro ou amizade após os comerciais.

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CLÁUDIO MOTTA-PORFIRO*

Em verdade vos digo. Choro um olho e lacrimejo o outro. Por ela os meus sinos dobram, a poesia flui, o para-choque enrijece e os sonhos se tornam muito úmidos, ou até melados mesmo. Creio até que não é nenhum pecado esticar os olhos, e o algo mais, no rumo de uma prima maravilhosa, principalmente, quando ela não é flor que se cheire, mas que se coma, do cálice ao androceu passando pelo gineceu e as pétalas.

Desci dos aposentos às onze. Uma senhora passada na casca do alho, com jeito de vedete dos anos sessenta e dentinhos proeminentes de bruxa, dada a violência das vassouradas, expulsava demônios ao varrer a parte que lhe cabe da calçada da alameda onde moramos. Cumprimentamo-nos sem alarde e sem mais delongas pelo medo que ainda tenho de pegar um quebranto, ou um mal de reza qualquer. Nunca se sabe. Um passe de macumba anda pela hora da morte. Para marcar um ponto num terreiro, hoje em dia, é preciso obedecer ao que prescreve a agenda do minha ialorixá mais linda do Brasil. Saravá!

Nem queria, ou quase, mas atravessei a avenida e fui ceder galanteios e mesuras ao monumento à natureza que responde aos meus ais pelo nome de Prima Louise. Um doce, às vezes, principalmente, quando está sem grana para o almoço, posto que o jantar é suspenso ou trocado por um tal chá verde em nome da manutenção da silhueta de musa.

Ela havia amanhecido como todos os dias. Ancas largas, pernas torneadas, peitos perfurantes, barriguinha lá dentro, cabelos negros como a asa da graúna, sobrancelhas desenhadas, biquíni vermelho devastador, sorriso de mel e degustando a brisa que vinha do mar àquela hora da manhã. Um arraso.

Não havia saído na noite anterior. A cara estava ótima e, já sintetizando, sem um tostão, posto que era quinta e o amante endinheirado só aparecia na sexta depois da meia-noite. Desocupada como eu, fomos em busca do supermercado onde comprei cervejinhas e um queijo vindo das estranjas. Daí, atravessamos o calçadão e já estávamos sob o guarda-sol Hilton. Nem preciso falar da minha libido aos pulos e aos gritos, berrando, feito louca, horrorizada com a minha falta de atitude.

Louise nasceu em uns sertões muito longínquos, assim mais ou menos mil milhas depois do inferno da pedra, ou onde o cão perdeu as botas. A beleza é resultado de uma mistureba que envolve libaneses, espanhóis e índios amazônicos. Formada na arte de passar em cartório o conto do vigário, muito cedo foi sentar praça na cidade grande. E deu certo. Garantiu um bom apartamento, a cem metros do mar. O amante é um sexagenário cheio da grana e ela se comporta muito bem em meio ao vuco-vuco próprio de quem nasceu quase partícipe de movimentos frenéticos, suspiros intensos e olhinhos revirando.

Minha fã ardorosa, muito cedo daquela quinta, ela já havia acessado a internet e visto as minhas postagens sempre eivadas de duplos sentidos e mão única, além das tiradas sacanas que marcam o meu estilo literário.

Então, ela tascou no pé da minha lata, na maior cara dura:

- Devo lhe dizer, querido, que você posta essas crônicas imensas porque é um sacana muito metido a-não-sei-o-quê. Quer ser demais.

Ao que eu contra argumentei:

- Aceito. Só que você nunca leu um texto meu completamente. Sempre dá uma olhada na introdução e outra na conclusão. Pensando bem, uma pessoa que nunca leu um livro jamais será tão afoita ao ponto de ler uma coisa enorme dessa, de cinco laudas.

- Você está voando geral. Não entendeu o meu convite para o almoço no Belmonte pago por você, é claro. Se existe uma coisa que homem pega no ar, é gripe. O resto tem que vir tudo explicado, mastigado, desenhado, depilado. Porra!

Durante o almoço, ela desatou um rosário de frases de efeito. Boa parte era relacionada aos encontros frugais quando da ausência dobode velho endinheirado.

- Meu caro. Depois de um périplo por esta vida de mariposa, agora, já quase balzaquiana, encontrei algum sossego. Mas ainda digo que o grande segredo que envolve os relacionamentos é você não esperar muita coisa de homens ou de mulheres. Eles são meros humanos erráticos e desenfreados. Simples assim. Toca pra frente. Empurra o pau.

Realmente, a vida deu uma boa guinada para ela. Sem noção e bêbada, vivia urrando e pedindo dinheiro emprestado, se achava politicamente correta e afirmava, com uma categoria impressionante, que a direita é a nossa saída, porque a esquerda é nervosa demais.

O ranço político partidário ainda hoje a leva a acreditar que as reais saídas para essa situação de calamidade em que os brasileiros se meteram, levados pelas elites que só querem os dividendos polpudos, estão no fator patriotismo. Analisemos uma das mais belas tiradas que eu já ouvi:

- Meu preto. O Brasil pode ser cafetão ou puta, mas é a minha mãe amada. Sou apaixonada por esta porra de torrão. Com ela, eu como o pão que o anjo bom amassou, ou a tapioca em que o diabo esfregou o rabo em cima. Posso até vir a trabalhar, coisa que eu nunca fiz. Monto um cabaré. Pronto.

É deveras impressionante ela escorregar de um assunto para o outro sem pestanejar e sem rodeios. Um bom gole de chope e já a verve sopra em outra direção feito vela que muda de rumo ao sabor dos ventos. (Onde ela aprendeu tanto?)

- O meu coroa e meu dono é o exemplo de um homem que venceu por méritos próprios. Diz ele que nunca enganou ninguém e eu acredito porque ele quer que eu acredite. Imagine um advogado com escritórios nas três mais importantes capitais brasileiras. Difícil, hein.

Depois do divórcio, a esposa anterior teria raspado o tacho e estava na pindaíba. Ela e os dois filhos, já adultos, teriam ficado com a metade de tudo. Enquanto eles quebraram, depois de oito anos, o coroa foi suficientemente competente para quintuplicar o que lhe ficou por direito.

A Prima Louise é linda em qualquer posição. Percebe-se, por exemplo, a partir do jogo de frases abaixo:

- Em dezembro, se Vênus ajudar, vamos fazer uma viagem de cinco meses pela Europa, Ásia e Pacífico Sul. É o que eu deixei bem claro dia desses: coroa rico e extremamente saudável tem mesmo é que gastar com puta. Melhor que deixar a grana para os filhos ficarem fazendo confusão. Deixa está!

Segundo ela, o coroa (que não é tão coroa) é o tal.

- Brother! Ele é do tipo que passa duas horas nas preliminares e depois faz alguma coisa interessante para ele, ou dorme. E isso me completa. É o amante perfeito, até porque, a essas alturas dos acontecimentos, eu já desmaiei dez vezes. Cá entre nós, sexo é igual futebol: o camarada tem logo que cair de boca no gramado.

Olhos vesgos, língua trôpega. Louise estava feliz e eu empolgado. E ela sapecou:

- Eu e ele morreremos juntos, um dia. Somos a corda e a caçamba. Já ouviste dizer que a diferença entre o advogado e a prostituta é que esta última deixa de extorquir depois que o amante morre. Então.

Já com as mãos dadas, de frente a frente, olho no olho, um em cada lado da mesa, ela disse que eu estou encarregado de escrever as suas memórias e o título do best-seller será O livro do óbvio segundo a inominável Prima Louise.

Como a felicidade não entra em pernas fechadas, depois do almoço, já noite alta, tomamos a rua Gustavo Sampaio e jamais diremos quem foi pra casa de quem, até porque ninguém tem nada a ver com isso. Ora essa!

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*Escritor. Autor do romance O INVERNO DOS ANJOS DO SOL POENTE, disponível nas livrarias Nobel, Paim e Dom Oscar Romero, ou pelo https://www.facebook.com/claudio.porfiro >

 

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CLÁUDIO MOTTA-PORFIRO*

Fizeram dele um menino tímido, como hoje ainda é, embora todos duvidem, poucos acreditem e ninguém veja. Cumpriu itinerários rocambolescos, é certo, ao redor da Terra e por mares nunca d’antes navegados. Em viagem, depois dos dez dias fora de casa, sentia saudades da mãe e, à noite, de olhos fechados, via-a passar as mãos na cama de modo a fazê-la mais confortável para o seu deleite. Era a emoção viva e pulsante da velha alma infanto-juvenil.

Em palavras bem estudadas, disse poemetos que nunca escreveu aos ouvidos do adorável gênero, ainda que nem estivesse apaixonado. A partir de meados da segunda década, fazia esse exercício ilusionista muito mais enquanto ensaio, para quando as coisas se fizessem realmente difíceis, como nunca foram. Ficava estabelecido, assim, um maravilhoso conluio e um nexo adorável entre o malabarista e as viandantes destas galáxias.

Mas as tais características donjuanescas jamais fizeram parte do rol das manias daquela alma sacana. Não iludiu, não mentiu, não trapaceou. Apenas omitiu detalhes às vezes um tanto sórdidos, escabrosos. Os versos eram abstratos, mas as segundas intenções estavam sempre à flor da pele, ou ao redor de uma despercebida vírgula recheada de duplo sentido. Se há de escorregar, é melhor cair logo.

E foi ele por aí, vivendo a vida leve e folgazã, uma vez que o soldo republicano o permitia. Ganhava bem para um moço de vinte e pouquinhas voltas ao redor do sol.

Ademais, o que fez além de sonhar com as divas do seu tempo, foi a compra de um carro um tanto luxuoso para a província e para aqueles períodos de devaneio. Como dizia de si próprio, à época, foi levando uma vida de pequenos deslizes, crimes mínimos, pecados hediondos, furtos insidiosos em que corações foram arrancados de peitos arfantes e juvenis, aos pulos. Nada demais. Julgava a si mesmo sempre um inocente, que deixava um olho acordado, enquanto o outro dormia a sono solto.

Passou a viver pensando que os que têm alma não têm calma. Aí foi que se iniciou no mundo das emoções. Cheio de raça a partir das tripas, matou a pau. Estudou o suficiente para tornar-se, um dia, um homem feliz, um sujeito realizado, apesar das limitações marcadamente humanas. Foi aprovado em tudo o que se meteu, só não em concurso de beleza, posto que a maré nunca esteve para tanto peixe assim, e Deus achara demais da conta ofertar a ele além do merecido quinhão. O Divino acertou quando a ele emprestou o amplo tirocínio.

Certo é que, a ferro e a fogo, nele gravaram a tatuagem indelével e fria da impetuosidade. Quase se tornou uma máquina programada para ir sempre em frente. Só mais tarde é que deixou de correr atrás, porque já havia alcançado tudo, ou quase tudo.

Num dos dias de adolescente, ainda imberbe, começaram a brotar as primeiras paixões avassaladoras, cáusticas, lacrimejantes, fúteis, como é tão natural entre a maioria dos que têm idade reduzida e pouco aprendizado. Certo é que as lágrimas não caíram, mas molharam quase por completo a alma medonha.

Manteve namoro com uma mocinha que nunca soube ter sido ele um dia namorado dela. Se soubesse, daria por concluído o suposto idílio. Isso só para dizer a um tio que era um principiante cheio de qualidades. Tudo mentira tosca. Só macaquice. Coisa de iniciante.

Hoje, a família primeira ainda dá asas aos sentimentos. É emocionante pensar nas dificuldades passadas e sentidas no decorrer de uma viagem do sertão do Ceará até o Acre, em busca do pouso seguro e nunca encontrado, feito o pote de ouro da lenda.

Às vezes, como em algumas madrugadas semanais, quando rabisca garatujas na máquina de fazer doido – o computador – bate uma boa saudade dos irmãos que ainda estão por aqui para ajudar a contar as histórias desde a origem nas terras dos xapuris. A essas horas silenciosas que nos propicia o sol escondido por trás da Terra, ainda pensa ouvir os relatos encantados dos dois que se foram em busca de outros mundos e de outras glórias superiores às nossas de terráqueos urbanos fúteis e pecaminosos.

Outro dia, ele viu um menino ainda quase menino, que ganha a vida esmurrando os outros dentro de um tal octógono e fazendo-os desmaiar, se possível. Dizia o rapazola ao repórter que matara a unha um leão por dia, comera o pão que o diabo amassou, dormira no chão duro e suado de uma academia de pugilistas, morara de favor num cubículo cedido por um amigo quase irmão, foi alvo de muitos favores, mas sempre lutou bravamente para, quem sabe, um dia…, um dia… comprar uma casa bacana para a sua mãe, em Manaus… É o Zé Aldo bom de porrada.

Lembra depois os que não são bem-sucedidos, aqueles que não venceram como gostariam, como aquele que queria ser igual ao Pelé, ou aquele que se comparava ao Zico. Estes não têm sequer a oportunidade de contar as suas historinhas de vida acabrunhada. Dá pena.

Um dia, já em idade bem madura, ele escreveu sobre as razões da emoção. Desfiou um rol delas. Talvez até aqui estejam anotadas algumas delas.

É assim que acontece quando a razão começa a tomar o lugar da emoção. O raciocínio pode tornar-se lento, mas fica muito mais eficaz, com certeza. Já não se acredita em gnomos. O sol é um astro apenas com autossuficiência em eletricidade. A lua já não é a namorada dos sonhos, mas o satélite da Terra que jorra uma luz fria e serve para alimentar os sonhos de conquista dos americanos.

Tudo é muito claro. Escuros são apenas alguns pensamentos de muitos que sonham com o dia da batalha final entre um coração fantasioso que jamais deixará de pulsar e o outro que para de bater e deixa a matéria a decompor-se e a desaparecer para todo o sempre.

Há uns amigos dele que choram e têm insônia quando o time do coração deixa de ganhar. O poetinha rasteiro já não sofre desses males escabrosos. Tem filhos para criar. Eles todos querem ser engenheiros e os seus camaradas tricolores querem que ele seja ainda um fanático pelo futebol. Já não é. Já não suporta sê-lo, apesar de nutrir as simpatias por este clube tantas vezes campeão.

Tenta ele explicar que já não tem idade espiritual para fanatizar as parcas emoções. Alguns menos inteligentes desaprovam tais atitudes racionais por não verem que a idade faz pensar mais claramente, que alguma leitura de livros aos milhares faz ver que é de pão, sim, que o homem vive, e não das migalhas que caem das mesas dos mais apaixonados.

Na verdade, o Fluminense já é um entusiasmo tênue. Estive lá, na primeira quinzena do janeiro último. Fotografei o irmão apaixonado na sala de troféus e no bar. Voltei muitos anos na minha história de torcedor antes fanático. Mas já não sou o mesmo. Já não respiro o império dos sentidos. Já não me tocam as paixões avassaladoras da primeira idade, embora o tilintar de copos, à noite, ainda me deixe um tanto perplexo ante a visão da vida noturna que se renova a cada bom trovador que ouço na Lapa ou no Paço, em Vila Isabel ou no Point do Pato.

Mais um chope à nossa saúde! Viver é bom demais. Ser feliz é melhor ainda.

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*Escritor. Autor do romance O INVERNO DOS ANJOS DO SOL POENTE, disponível nas livrarias Nobel, Paim e Dom Oscar Romero, ou pelo https://www.facebook.com/claudio.porfiro

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Durante muito tempo, eu fiquei obcecada com o meu corpo. Depois que emagreci os tão sonhados 10 quilos, acredito que o meu maior pesadelo era ganhar esse peso novamente. Então, me privei de muitos momentos e prazeres. E me achava saudável de verdade, mas no fundo detonava a minha saúde mental.

Consegui trabalhar isso dentro de mim e tenho cada vez mais encontrado o equilíbrio. Quer saber como faço isso? Vou te contar aqui!

Primeiro passo: identificar a obsessão

Se você perceber que não come absolutamente NADA sem ler os rótulos do alimento já é um alerta. Outra situação é deixar de sair e ter momentos únicos porque acredita que não pode comer nada. Além de viver se pesando e controlando cada coisa que come.

Para você ter noção, se tivesse um grão de arroz no meu prato eu tirava, pois aquilo era carboidrato e ia me engordar. SIM, é loucura, mas eu estava cega naquele momento.

Algumas pessoas me alertavam, e eu – infelizmente – ignorava. Então, procure ouvir mais quem te ama de verdade e se preocupa com você. É claro, sempre tem aqueles que gostam de cuidar da vida alheia e não acrescentam em nada, mas esses logo identificamos e relevamos, tá? hahaha.

Procurar ajuda de profissionais para ser saudável de verdade 

Quando conversamos com profissionais da área da saúde, ganhamos mais confiança e credibilidade. Afinal, eles sabem exatamente o que estão fazendo.

Convivi um tempo com uma excelente nutricionista e ela tirou de mim as crenças limitantes que tinha adquirido em relação a comida.

Fiz testes e percebi que era só controlar a quantidade do que comia para não engordar novamente. Lógico que eu não iria comer todos os dias “besteiras” em pequenas porções.

Eu aprendi que deveria sim comer legumes, vegetais, proteínas e carboidratos de qualidade, mas poderia me permitir comer o que sentia vontade de vez em quandoapenas não precisaria exagerar.

Portanto, se eu quisesse um bolo, era só comer uma fatia fina e não vários pedaços grossos como fazia antigamente. Isso ainda ajuda a controlar o exagero em outras refeições.

Passos essenciais para ter equilíbrio

  • Se exagerar em uma refeição, basta comer menos na outra. Nada de ficar sem comer por muito tempo, ok? Como disse, estômago vazio pode gerar compulsão alimentar;
  • Deu vontade de comer um docinho? Então, coma! Mas controle a quantidade! Saboreie devagar e aprecie o alimento de verdade;
  • Tem um evento especial em vista? Para aproveitar quando chegar a hora e não se privar, controle mais na alimentação nos dias anteriores. Dessa maneira, você poderá comer um pouco mais sem muita culpa;
  • Beba muita água! Isso oferece diversos benefícios ao corpo e é essencial a saúde. No entanto, além disso, ajuda a amenizar a fome;
  • Faça exercícios físicos regularmente. Se você não é muito fã de academia (como eu), procure alguma atividade que goste. Eu, por exemplo, coloco o FitDance no Youtube e danço uns 40 min por dia, para mim é prazeroso e ainda gasto umas boas calorias, rs.

Por fim, gostaria de ressaltar que, sim, engordei alguns (poucos, rs) quilos após trabalhar minha consciência, mas estou muito mais feliz agora.

Espero que minha experiência e minhas dicas tenham ajudado. Você também tem buscado o equilíbrio? Quer saber mais sobre esse assunto? Então, comenta aqui embaixo. ❤️

 

Paola Brescianini

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Desde que o mundo passou a ser ocupado pelo homem, em determinado momento da história ele teve problema com uma geração e passou a regredir. O homem não passou só a inverter o papel com as mulheres. As novas gerações passaram a ser tão frouxas, a ponto de querer mostrar sua superioridade com atos de agressão, semelhante a conquista na idade da pedra.

Já perceberam que quando um caso de violência contra mulher é exposto, rapidamente pipoca uma trilha de outros casos pelo país a fora, algo semelhante ao suicídio. Obviamente que todos ficamos impactados ao imaginar ou tentar entender, como que uma pessoa que jura amor eterno seja capaz de tirar a vida da parceira.

A cada caso que surge na mídia local ou nacional, como foi o caso da advogada e seu parceiro também advogado, fico revoltado com atos tão covardes pelo mesmo gênero ao qual faço parte. Creio que isso ocorra com outros também que não compactuem com essa demonstração de covardia.

Hoje falo direcionado a você meu amigo rascunho da criação, o macho alfa, o senhor da porra toda, o homem da relação. Você já parou para contar quantas vezes foi babaca com uma mulher? Você está na seca? Quem te deu o direito de assediar a moça? Você a conhece para poder assoviar pra ela? E se fosse da sua família? E se tantos... e se... você ouvisse servissem para se tornar um homem de verdade?!

Podemos apontar diversos questionamentos, mas jamais saberemos o pavor que uma mulher sente ao receber o gracejo de um desconhecido. O medo da reação dele em ser rejeitado. O pânico de receber um soco de volta após dá um tapa na cara dele ao reclamar de que jamais poderia ter dado um tapinha na bunda.

Você já se imaginou no lugar de sua mãe, irmã, parente ou namorada durante uma luta corporal enquanto ela se debate para não ser estuprada, assaltada ou até mesmo morta? Já se imaginou pegando um tapa, murros e ponta pés sob ameaça de que se gritar ou falar para alguém, a próxima vez será bem pior ou te matará? Estou pegando pesado? E se tudo isso acontecesse enquanto vários caras forçam uma relação sexual com vocês ou te puxa na boate querendo um beijo, quando você só saiu para se divertir?

É fácil se imaginar estar no lugar de uma mulher e até da sua reação se caso algo do que coloquei acontecesse. Jamais saberemos todas as sensações que uma mulher terá diante do perigo constante que é o parceiro.

Quantas mulheres passam por isso e caladas para tentar salvar uma relação já fracassada? Quantas noites uma mulher apanha do companheiro para tentar manter uma “harmonia” familiar e na manhã seguinte ou mesmo minutos depois vai para a rua sorrindo como se nada tivesse acontecido? Você deve achar que isso ocorre com maior frequência em classes sociais mais baixas, muito pelo contrário, isso acontece em todo lugar e não escolhe quem tem mais ou menos dinheiro.

Ver uma mulher usando decote ou roupas curtas não te dão o direito de ir atrás de uma posse. Uma fotografar usando sua beleza não quer dizer que ela esteja pronta para aceitar seu dinheiro em troca do seu pênis. Uma mulher que expõem sua sensualidade é para si mesma ou para as outras mulheres, só pela questão de mostrar que está bem.

Aprenda meu farsante amigo aspirante a Don Juan, uma mulher sempre está e estará linda e pela para outra mulher, elas sempre serão concorrentes e você nada mais será do que um coadjuvante na vida dela. Enquanto novas a prioridade será elas, com a chegada dos filhos serão eles e se sobrar um tempo para você, ela dará essa atenção. Mas faça por onde merecer uma paixão e não uma pessoa na base da pressão.

 

Victor Augusto N. de Farias é jornalista, sindicalista, rotariano e acreano.

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Amanhã tem início oficialmente a campanha eleitoral. A batalha política vai acontecer num momento conturbado do Brasil, marcado por uma crise econômica e social que afeta diretamente a geração de empregos e fortemente a renda dos mais pobres, ampliando desigualdades e agravando mazelas de uma sociedade que vê crescer a fome, os preconceitos e a violência.

Nesse momento, o descrédito dos ditos “políticos” atinge um patamar tão elevado perante a população que põe em cheque a política e o papel do Estado, vistos por muitos como desnecessários, servindo apenas como fonte de benefícios para alguns, custeados por meio de impostos cobrados injustamente.

Nesse cenário, durante os próximos dias, as pessoas ouvirão dos marqueteiros, que falam por meio de alguns candidatos, tudo que soa agradável aos seus ouvidos: soluções mágicas, promessas inexequíveis, negação da política e seus aliados. Proposições simplistas marcadas por frases de efeito e sem conteúdo: “é hora de mudar”, “alternância de poder”, “fora isso...”, “fora aquilo...”, “nunca mais...”, “segue o líder”, e outras superficialidades do tipo.

Porém, diante da gravidade e da importância do processo eleitoral para o país, num cenário de tamanha incerteza, uma avaliação mais profunda deve embasar as tomadas de decisão; principalmente porque o Governo Federal e os Estados deverão ser as principais ferramentas de superação da crise.

Logo, os postulantes aos cargos majoritários de governador e presidente devem ser avaliados não pela simpatia, carisma ou por pertencer a partido A ou B. Muito além disso, como cidadãos, devemos observar a capacidade de trabalho, a habilidade administrativa e de liderança; o compromisso ético com os interesses maiores da sociedade e, fundamentalmente, o respeito com a coisa pública.

A disposição e a capacidade de construir um ambiente de diálogo plural é outra característica imprescindível. Devemos avaliar atentamente se o plano operacional que apresentam responde às reais necessidades da sociedade e se é exequível, num ambiente social e economicamente tão conturbado.

A decisão que iremos tomar em outubro apontará o desfecho que daremos para essa crise e qual o novo ciclo a ser inaugurado. É uma decisão que não pode ser transferida com o voto ou limitada apenas pelo ato de votar. Deve ser envolta em uma nova atitude cidadã de participação e compromisso de todos com o presente e o futuro que queremos. Como diria Luther King, “Nossas vidas começam a terminar no dia em que permanecemos em silêncio sobre as coisas que importam.”

Por Cesário Campelo Braga

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CLÁUDIO MOTTA-PORFIRO*

Em meio a uma ainda quase bêbada preguiça crucial, como sempre, transcorriam aqueles dias pós-carnavalescos. As águas de março, meio lerdas àquelas alturas, ainda não haviam feito o barraco ir ou vir a pique, até porque não existia barraco e o endereço na zona sul sequer requeria reforma. Em verdade e afinal, a vida é uma comédia e rico ri à toa, até dos dissabores próprios das desilusões tardias. Dane-se.

Desde alguns dias, pois, gravara ela na memória poesia moderna segundo a qual refresca o vento sopra calma a maresia. Coisas de um marinheiro qualquer metido a devaneador. A musa, então, se apaixonara ante a presença de um poeta invisível e não saído de nenhum conto de fadas, até porque as fadas estão fartas de tanta gente melíflua e cheia de dedos untuosos. Um horror, como um dia, mais tarde, ela veio a dizer.

Depois, ouvira melodia de Caetano que dizia e ela acreditava naquele lance de que você é linda, mais que demais, onda do mar do amor que bateu em mim. Apaixonara-se, ao mesmo tempo, pelo poeta evasivo e desconhecido, e pelo baiano Veloso cauteloso, zeloso e cioso da melhor poesia musicada do mundo.

Mas a vida agora começava a tomar tento. Talvez aos socos, a realidade estava a lhe bater à porta, insistentemente. Providências urgentes ou medidas cabíveis deveriam ser tomadas hoje, agora, antes das dez, ou mesmo um pouquinho depois da pequena ressaca obtida pela ingestão de um vinho branco cujas intenções malévolas é emagrecer beldades com alguns parcos gramas a mais.

Tomara sol no posto dez, entre sete e nove horas daquela manhã ensolarada, de fins de fevereiro. Almoçara frutas tropicais, açaí e granola zero cal. Tirara uma pestana depois do meio dia. Agora, de posse de uma taça com morangos e chantilly diet, repousava em um acolchoado amparado por cadeira de alumínio firme estrategicamente colocada na sacada de forma a que as pernocas trepadas e meio inclinadas, ficassem amparadas pelo balaústre do avarandado de vidro grosso. A brisa marinha lhe acariciava o espírito vago colado em belíssima fêmea. Estava a fazer hora para, às quatro da tarde, ir mostrar o corpanzil de modelo performática de trinta e tantas voltas, na Davor Fitness, uma academia de bacanas, na borges, em frente à lagoa.

Traquejada como ela só, fora assídua frequentadora de uma escolinha de vida fútil por anos a fio. Agora, nos finais de semana que antecederam ao Carnaval, como em todos os outros, um mercedez cinza prateado conversível, zero bala, servia de condução rumo às indizíveis noitadas nas pousadas de Búzios e Macaé, na companhia de moços e moças muito dados à vida leve, levada e vadia ao mesmo tempo.

Acontecera-lhe o terrível dilema muito comum em meio às esposas dos magnatas. Há quatro meses, em meados do outubro anterior, o amante solteirão, sócio majoritário de um robusto conglomerado financeiro, de cinquenta e tantos de idade, se evadira com uma ninfeta argentina e agora morava em Bariloche.

Uma mesada de algo em torno de quarenta mil mensais fora deixada para a cobertura dos pequenos luxos, inclusive, com aschandons básicas da vida afrodisíaca a perder de vista.

No acerto junto aos advogados, com reconhecimento de firmas em cartório, também o apartamento duplex que servira de ninho ao amor anterior, durante nove longos anos, ficara, agora, para ela sozinha, uma vez que o bacana viajado e fujão nunca quis crianças ao derredor.

Pois bem. Ela, a partir do dia em que o infiel se foi, começou a pensar, meticulosa e detalhadamente, de lápis em punho e um note sobre as coxas miraculosas, nas idas e vindas da vida farta. Atitudes deveriam ser tomadas, logo, hoje, agora, urgentemente, uma vez que dele o destino incerto foi, de início, à velha Europa, acompanhado de uma ninfeta na flor dos seus dezoito aninhos a cochichar sacanagens, em espanhol, aos ouvidos mais libidinosos do planeta azul.

Cá com os meus botões de madrepérola suja  –  dizia o poeta benfeitor  –  tenho insistentemente pensado que muitas são as pessoas que perseguem objetivos diferentes das outras. No entanto, mesmo que tentem ocultá-los, a sua atitude perante a vida denunciará seriamente os seus valores, sejam eles positivos ou negativos. Senão vejamos.

Justine era o nome talvez de guerra da musa de ancas alargadas pelos janeiros passados presentes vividos entre o sonho e o som, como na melodia do Belchior nos anos oitenta. Sorvendo o vento da sacada e a vidinha saudável até sexta-feira, fato é que já se conformara com a partida do coroa devasso. Engordara um tiquinho e, talvez por isso, tenha sido trocada pela Alexia portenha. Coisa comum entre os mais abonados que podem deixar uma linda mulher para viver romance fogoso com uma pós-adolescente de nariz empinado e cabelos louros nas axilas.

Entre os bacanas, tornaram-se hábito, desde um tempão, alguns procedimentos tomados quando o marido ou a esposa se vão. Eis a receita ditada ao poeta insone, ao redor de umas caipirinhas, pela musa loura abandonada de olhos azuis. Uma loucura. Ela ainda é daquelas que faz qualquer sujeito desatento perder o fio da meada.

Perguntada sobre uma fórmula inteligente que deixaria escrita, se for o caso, em livro, ou em bom papel, para quem precisasse, numa hora quase apocalíptica como a que ela viveu, a resposta veio aos borbotões, como gosta aquela gente descolada e cheia de muito ritmo, cadência e jogo de cintura cabível nas mais diversas situações, sejam desabonadoras ou não, assim do tipo a ocasião é que faz ou desfaz o cidadão.

Como ela é fluente no seu português cheio de musicalidade e bossa. Quase os olhos do poeta se apaixonaram porque a libido estava aos gritos.

– Meu caríssimo! Consideremos, de início, o óbvio. Que a consulente, ou vítima, ou algoz, como quer que seja, tenha largado o marido, ou tenha sido largada por ele. O primeiro e o mais importante procedimento é buscar, urgentemente, matrícula em uma academia de fitness conceituada, de preferência, sob as vistas e o auxílio luxuoso de um personal trainer bonito e sem caráter, o que não é difícil, de forma alguma. A depender do caso, é preciso perder ou ganhar alguns quilos, até porque muita energia ainda há que ser gasta e você precisará dela e da que for acumulada pelo condicionamento físico originário também de outras atividades ainda mais saudáveis e gostosas.

– E daí qual seria o próximo passo? – Foi a pergunta estilo lantejoula, entre uma piscadela e outra. O bardo da poesia arrastada estava no auge.

– Tomada a providência acima, você deve se instalar, confortavelmente, numa poltrona, ou sobre um tapete felpudo e limpo, claro. Plugue-se a uma rede social de grande fluxo de animais sociais. A partir de agora, hás de usar todos os truques e ardis que te levem à cata de um acompanhante que venha a tirar a tua alma da porra da sofrência. Só assim, você esquecerá o Ricardaço que lhe frustrou muitos planos… Experiência própria, meu lindo!

O poeta encardido não ficou surpreso. Acostumara-se a estas rasantes sazonais do destino. Daí ele, já não tão sóbrio, apenas conseguiu dizer para si próprio:

– Pior mesmo é que esta que se diz vítima é um pedaço de céu. Encantadora. Um deslumbre.

Ela ouviu a pequena récita. Agora, as coisas tomaram o melhor dos rumos.

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*Escritor. Autor do romance O INVERNO DOS ANJOS DO SOL POENTE, disponível nas livrarias Nobel, Paim e Dom Oscar Romero, ou pelo e-mail Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. >

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Por Caio Penido, Presidente do GTPS

Assumi no último dia três de julho, a presidência do Grupo de Trabalho da Pecuária Sustentável (GTPS) com o objetivo de fortalecer os elos da cadeia da carne no avanço da pecuária sustentável no Brasil. Acredito ser necessário encontrar uma forma de produzir o suficiente para atender a demanda mundial de proteina animal no presente e no futuro, sem colocar em risco nossas riquezas naturais, fundamentais tanto para o próprio negócio, quanto para toda a humanidade.

Nossa realidade hoje é bem diferente de há dez anos, quando o GTPS foi criado. Hoje sabemos que somos uma potência AgroAmbiental, com mais de 60% do nosso território coberto com vegetação nativa e dispondo de uma legislação ambiental moderna e conservacionista. É preciso que as instituições públicas ambientais (estaduais e federais) finalizem as análises de conformidade do Cadastro Ambiental Rural (CAR) e proporcionem segurança jurídica aos produtores rurais brasileiros. Só através da regularização ambiental, da intensificação sustentável responsável (baixo carbono) e da criação de mecanismos que mensurem a sustentabilidade, o Brasil conquistará o respeito internacional que merece.

Quero contribuir para provar que é possível o setor produtivo e ambiental - com o apoio dos outros grupos (instituições financeiras, indústrias, varejo/restaurantes e insumos/serviços) - atuarem em uma agenda comum que agregue valor a produção sustentável, a biodiversidade e ao Brasil. Para isso vamos captar recursos para os projetos do GTPS junto a agências governamentais, fundos de impacto, associações de produtores, indústrias, varejo e fundações, buscando sempre garantir a idoneidade, transparência e o fortalecimento da confiança entre os elos toda a cadeia da pecuária.

Por isso, um dos principais desafios do GTPS é fortalecer ferramentas como o Guia de Indicadores da Pecuária Sustentável (GIPS), que permitem a identificação e mensuração dos atributos de sustentabilidade de todos os setores da cadeia (e não apenas dos produtores rurais). A partir do momento que o produtor obtiver ganhos financeiros resultantes da adoção de práticas sustentáveis de produção e conservação, criamos um ambiente de motivação econômica para que os outros produtores adotem essas mesmas práticas.

Com base nesses indicadores, também poderemos nos apresentar ao mercado mundial e pressioná-lo, se for preciso até via Organização Mundial do Comércio (OMC), a valorizar realmente nosso produto “carne sustentável” e os serviços ecossistêmicos prestados pelas reservas florestais em nossas fazendas. Desta forma, o Brasil deve caminhar para ocupar o lugar que merece na geopolítica mundial, uma potência AgroAmbiental essencial para a segurança alimentar e ambiental de toda a humanidade.

Todos os anos, no período do verão amazônico, nos deparamos com uma grande seca no Acre que, além de trazer enfermidades à população, acarreta grande prejuízo ao meio ambiente. Entre os meses de julho e outubro, a escassez de chuvas é grande, pois poucos focos desse fenômeno da natureza são registrados pelo Sistema de Proteção da Amazônia (Sipam).

Durante esses quatro meses, a preocupação não se resume à penúria das chuvas, mas a uma prática considerada cultural na Região Norte, que é queimar, seja na cidade ou no campo. Várias pessoas aproveitam esse período do ano, quando a umidade relativa do ar cai drasticamente e a vegetação ganha aspecto seco, mas, segundo as autoridades, queimar é crime, seja na área urbana ou rural, com multas que podem variar de R$ 300 a R$ 1.000 e em área de reserva legal, a R$ 5.000 por hectare.

Os órgãos ligados à área ambiental, como o Instituto de Meio Ambiente do Acre (Imac) e as secretarias municipal e estadual de Meio Ambiente, além do Corpo de Bombeiros Militar, enfrentam uma verdadeira batalha para coibir essas ações, como também orientam a população sobre os malefícios que essas práticas causam.

Como relatei, há vários anos ocorre essa problemática, mas as pessoas ainda não se conscientizaram de que queimando lixo no quintal estão prejudicando a si mesmas. Infelizmente, muitos ainda não se preocupam com o bem-estar do próximo, mas com o financeiro, porque acham mais barato ou simplesmente têm prazer em queimar lixo e roçados.

Hoje em dia é muito fácil culpar alguém por um erro, mas assimilar que está praticando é raro. Observo que, quando o cidadão recebe uma multa, a primeira pessoa que ele culpa é o governo ou o órgão que o autuou, porém, dá continuidade ao erro no ano seguinte. As estatísticas mostram que as pessoas que são notificadas este ano já receberam notificações nos anos anteriores.

Não pratico queimadas, mas como posso ajudar?

Denunciar! Essa é umas das melhores formas de ajudar aos órgãos competentes chegarem aos infratores e penaliza-los, pois muitos só aprendem quando seu bolso é atingido, e as reclamações podem ser feitas pelo 190, 193, 3228-5765 (SEMEIA) e 3227-5095 (Policiamento Ambiental). Outra forma de auxiliar é receber bem os ficais que desenvolve atividades de orientação.

As queimadas urbanas são regulamentadas pela lei municipal nº 1.330/99, onde no artigo 112 diz que fica proibida a queima a céu aberto. Também a lei municipal 1.459/92 regulamenta a questão das queimadas urbanas.

No artigo 12, inciso VI da lei 1.459/92 diz que: “efetuar queima ao ar livre, em área própria ou pública, de lixo domiciliar bem como de restos de poda de árvores até o volume de 100 litros” dá uma simples de 2,24 UFMRB.

O artigo 13, em seu inciso XV considera como infração grave “utilizar ou provocar fogo para destruição de formas vegetacionais em projetos agropastoris ou qualquer outra área sem a devida licença ou desacordo com a obtida”.

Já o inciso XVI da lei 1.459/92 diz que “efetuar queima ao ar livre ou em incineradores que operem sem autorização ou fora dos padrões legais de resíduos domiciliares em volume superiores a 100 litros” provoca uma multa diária para os estabelecimentos comerciais, industriais, institucionais ou prestadores de serviço.

Queimar não ajuda

Muitos agricultores se utilizam das queimadas para o preparo das áreas agrícolas voltadas para o cultivo de lavouras, renovação de pastagens, controle ou combate de pragas e doenças de plantas, de criações, além de plantas invasoras, entretanto, sabe-se que a queimada altera, direta ou indiretamente, as características físicas, químicas, morfológicas e biológicas dos solos, como o pH, teor de nutrientes e carbono, biodiversidade da micro, meso e macrofauna, temperatura, porosidade e densidade.

Sem falar no aumento do efeito estufa, na redução da qualidade do ar e da água, e da saúde. As queimadas podem ser abolidas pelo uso de tecnologias como práticas conservacionistas de solo e água e sistemas de produção sustentada.

Uma das alternativas é a queimada controlada, ou seja, as famílias que depende da agricultura para subsistência solicita ao Imac autorização para a queima de um hectare de terra. O pedido de autorização é deferido no prazo de até 30 dias e não é concedida aos posseiros, por eles não possuírem a propriedade legal sobre a área de terra.

Quando foi criado o plano de integração de prevenção, controle e combate às queimadas para diminuir os focos de calor no Acre, a estratégia foi proibir todo tipo de queimada. Porém, a prática comprometeu os pequenos produtores, que não tiveram acesso à mecanização e não puderam substituir a queimada pelo uso da tecnologia. Com isso, a proibição acabou contribuindo para o aumento do número de queimadas não autorizadas.

Não somos os únicos culpados

Como o Acre está localizado em uma região que faz tríplice fronteira entre Brasil, Bolívia e Peru, as queimadas que são realizadas nesses países, principalmente na Bolívia faz com que os ventos tragam muita fumaça, pois não há controle de incêndios nos países vizinho.

Juntando toda a fumaça das queimadas praticadas aqui com as que vêm da Bolívia, causa um grande transtorno na vida dos acreanos, com isso, os postos de saúde e Unidades de Pronto Atendimento (Upa), ficam superlotados com crianças e idosos com problemas respiratórios e até o tráfego aéreo é afetado pela densa fumaça que se forma.

Fica a dica!

Estamos iniciando o verão amazônico, e para que esses e outros problemas sejam amenizados no pico do verão que é entre agosto e setembro, vamos fazer nossa parte em não queimar lixo nos quintais, denunciar que insiste em queimar e tomar alguns cuidados com a saúde para que tenhamos um verão bonito, agradável e que todos aproveitem de forma consciente.

 

Por Marcelo Torres, jornalista