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Uma das memórias mais presentes em mim como sentido é a auditiva, muitas das músicas que ouço me levam no tempo e revelam lembranças que até achava não possuir mais. A música me faz lembrar com clareza, de momentos já vividos em família, de paqueras no parque, amores de colégio ou aquele lance da faculdade.

A música tem a capacidade de me fazer lembrar aquelas tardes na sala de casa, ouvindo meu pai falando do seu dia, como a de Nelson Gonçalves em Naquela Mesa, assim como Temporada das Flores com meus avôs ouvindo a difusora. Ou Novos Tempos enquanto eu trocava beijos longos e safadinhos com a gatinha no parque. A música é a linguagem universal entre povos e pessoas.

A música tem o poder de desenvolver ainda mais o intelecto das pessoas. Pesquisas afirmam que os músicos têm muito mais neurônios trabalhando do que uma pessoa comum, pois eles movimento mais massa cerebral.

Mais inteligentes ou não, a música tem a capacidade de nos empoderar. Aquele dia em que marcamos de sair e começa a chover, você liga o rádio e ouve Os Seus Botões. A chuva até aparente passar, vocês se sentam próximos, vão se aproximando mais e daí pra frente é partir para o abraço. Quando o espetáculo termina, o som já acabou e o dia amanheceu. Você se levanta amando até o Fica Comigo Essa Noite.

Recordo que no meu tempo de ensino médio e anos iniciais da faculdade, a música ideal para você lançar os olhares para as costelas de nossa existência é a tema do Armageddon - Aerosmith " I don't Wanna Miss A Thing ", com essa não tinha ou ainda tem moça que resista. Claro que um clássico também é bem vindo do Bom Jovi, como It's My Life.

Quase me esqueço dos mais clássicos ainda. Quem não teve uma boy band na sua juventude? Na minha pré-aborrecência tive a fase dos Backstreet Boys – Everybody, quando essa música tocava, era o alerta para verdade ou desafio. Bons tempos de aniversários na Carol, a turma se namorava na maior inocência. Se é que se pode ser inocente com um alerta desses.

O tempo vai passando, as coragens vão passando e dependendo do dia até rola esses atrevimentos, mas só tem rolado chifre musical, que se você não dança na pista com a mina, você dança e cai chupando dedo. Precisamos de um mundo musical como antigamente para os novos momentos. Viva Andrea Bocelli que Vivo por Ella e eu também.

Abaixo vai um pouco dos anos anteriores aos meus e do meu tempo para aqueles momentos do Recordar é Viver.

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Por Luiz Henrique Dantas Carrijo, Diretor Técnico da Integral/Cargill Nutrição Animal

A demanda crescente por alimentos e a diminuição de áreas produtivas no Brasil, evidenciam a necessidade de evolução e incremento de tecnologias que impulsionem a produtividade na pecuária. Se compararmos a criação de animais com a agricultura, a primeira já sairá na desvantagem pelo desequilíbrio entre os níveis tecnológicos com que são conduzidos na maioria dos projetos pecuários no país.

Mas, apesar desse cenário, ainda é possível ser competitivo na produção de carne bovina. A técnica de confinar bois, por exemplo, pode ser usada de forma estratégica para aproveitar melhor os recursos disponíveis na propriedade, uma opção de manejo para aliviar os pastos na seca, aumentar o giro da fazenda, colocar no mercado uma carne de melhor qualidade e aumentar a produção do produto por área, ou pela possibilidade de o produtor conseguir preços melhores de venda dos bois.

Existe ainda, a possibilidade de enviar animais para acabamento em confinamentos de terceiros nas modalidades de pagamento de diárias e/ou parcerias, estratégia muito interessante para aquele produtor que intensifica a recria de seus animais no período das águas, produzindo uma arroba com custo mais baixo, e utilizando o confinamento para realizar o acabamento dos animais e liberar as áreas de pastagem da propriedade no período seco.

Mesmo com os avanços em termos de manejo de pastagens e estratégias de produção de carne a pasto, o confinamento não deixa de ser essencial quando falamos de rentabilidade e competitividade da pecuária de corte. Ainda com as evoluções tecnológicas na produção a pasto, essas apresentam limites operacionais ou mesmo de área, e que fazem do confinamento uma opção viável para aumento de produtividade.

No entanto, por ser uma estratégia de ciclo curto, 80-120 dias em média, deve ser muito bem planejada e conduzida para proporcionar o máximo retorno sobre o capital investido. Qualquer que seja a escolha do pecuarista alguns pontos são fundamentais para o sucesso da atividade e a maximização dos lucros.

Manejo pré-confinamento

Com foco na fase final da engorda, muitas vezes nos esquecemos que o manejo inadequado no pré-confinamento pode prejudicar os ganhos zootécnicos. É comum observarmos casos em que o ganho de peso dos animais nesta etapa serve apenas para recuperar algo que ele perdeu antes.

Um estudo recente elaborado pelo pesquisador da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA), Gustavo Rezende Siqueira, apontou que o manejo inadequado pré-confinamento pode gerar queda de até 10% no desempenho animal.

Neste sentido é importante considerar a suplementação a pasto antes do confinamento. Pesquisas mostram que está prática ocasiona desempenho superior, principalmente quando se avaliam índices de conversão alimentar, eficiência biológico, ganho em carcaça e quantidades de arrobas produzidas.

Com uma nutrição prévia adequada mesmo que o animal viaje longas distâncias, as chances de resposta no confinamento são muito favoráveis. Sendo assim, o pecuarista pode trabalhar com 30 a 60 dias antes desse animal vir para o cocho para a pré-adaptação na fazenda.

Qualidade genética dos animais

Outro fator importante que afeta a performance dos animais no confinamento é a genética. Gados geneticamente superiores tem melhor desempenho zootécnico, com maiores ganhos em peso, conversão alimentar e eficiência biológica.

Para isso, o pecuarista precisa avaliar as condições da fazenda e escolher os melhores animais para reprodução do rebanho, considerando as características de clima, região e o tipo de mercado que deseja atingir com a produção final.

Planejamento alimentar do confinamento

Assim como o manejo pré-confinamento, é fundamental que o pecuarista estabeleça uma estratégia de escolha e compra dos insumos que serão usados para composição das dietas. Essa prática facilita a programação do confinamento e pode garantir boas oportunidade de aquisição dos produtos à preços atrativos.

Manejo de fornecimento da dieta

Mas como definir o fornecimento da dieta? Nesta fase o produtor precisa considerar a estrutura física do confinamento, quantidade e qualidade dos equipamentos disponíveis, além da variação média da temperatura ambiente. Para isso, é preciso realizar a verificação regular do clima por uma equipe externa ao confinamento.

Avaliações constantes de desempenho

É fundamental, também, coletar e analisar regularmente os dados de desempenho dos animais, assim é possível verificar se o que foi programado está sendo alcançado e, o mais importante, se algo precisa ser corrigido.

Controle de fornecimento de dieta e custos do confinamento

O fornecimento das dietas e, consequentemente o custo da atividade, também devem ser controlados diariamente através do preenchimento de planilhas e/ou programas específicos, que emitirão relatórios diários para serem analisados pela equipe do confinamento e também por uma equipe externa.

Pensando na necessidade de toda programação e estratégia relacionada ao confinamento, a Integral, marca de Nutrição da Cargill, realiza o trabalho de orientação à campo, auxiliando clientes no planejamento, condução e gestão dos negócios, sempre com o foco no lucro da atividade.

A empresa também realiza frequentes treinamentos com a equipe de técnicos e clientes, objetivando qualificar cada vez mais a mão de obra responsável pelo dia a dia das fazendas e que tem um papel fundamental para se alcançar os objetivos que foram traçados para o negócio.

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CLÁUDIO MOTTA-PORFIRO*

É oportuno misturar fatos quadrados a personagens redondos. Há os que gostariam de uma análise, aqui, a respeito do fenômeno que representam as academias de ginástica e as suas relações com a modernidade. Há outros que cogitam a possibilidade de um comentário acerca das complicações posturais que surgem a partir de exercícios executados mais a torto que a direito. Todavia, como cronista deste chão batido, observo tudo com olhos de um hipopótamo vesgo que escondem por trás de si lampejos de uma crítica invariavelmente caótica.

Estou convicto, enfim. A vaidade é a base de tudo nesta joça de mundo. Ou somos vaidosos, ou não somos ninguém. O que interessa, hoje, é aparecer bem na foto. E há adereços, adornos e enfeites de todos os tipos. Vai-se de uma tatuagem na bunda siliconada, ou de um piercing nos grandes lábios, a uma roupa da melhor grife, ou a um carrão importado direto da Bolívia, não se sabe lá por quais meios lícitos ou ilícitos.

– Cheguei à boate Diesel, fui friamente calculada dos pés à cabeça pelos olhos mais cobiçosos dos rapazes a desejarem o meu rabo de sereia. Fui invejada pelas moças mais fúteis das faculdades tais. Abalei Bangu e adjacências. Tomei todas e sou feliz, apesar da ressaca que me come o espírito por haver comprado toda a minha indumentária, fiado, em boutique qualquer. – Eis um depoimento colhido por este observador.

Ela tem certeza de que faz o que faz porque é inteligente, o que a torna um poço de vaidades. Se, com a alma, que ninguém vê, acontece esse intrincado jogo de tira e bota; com o corpo, que muitos admiram e até sentem pelo tato, tudo é muito mais real, posto que visível e palpável.

Além de autoconfiantes e empavonados, todos nós nos esforçamos muito, a fim de nos tornarmos bonitos, de cara e de corpo, muitas vezes, infelizmente, não para nós mesmos. E é aí que mora o perigo de se gastar o que não se tem, ou de se tornar impermeável feito estátuas infladas por incontáveis botox.

Existe uma onda por aí que afirma que as mulheres se enfeitam não para os homens, mas para as outras mulheres, talvez suas rivais, que se matam de inveja umas às outras, simplesmente, porque o seu tubinho é brilhoso e o da vítima, não.

Assim como corre também por aí que uma mulher, em trinta segundos, na entrada de um baile, por exemplo, já vê trinta vestidos diferentes nas cores e nos realces. Enquanto um homem, de chegada ao mesmo evento, passa dois minutos mirando apenas uma única bunda, até que a amante de plantão o faz acordar do transe com uma boa dose de uísque que encharca a cara do salafrário. Bem feito.

Esta academia demais é como as suas congêneres. Há umas moças mui belas, outras talvez. Há aquelas que, por pura cortesia, cumprimentam a todos. Outras, as mais bonitas, empinam o nariz e sequer olham para algumas almas sequiosas. (Eu, cá de minha parte, nunca fui a favor de mulher bonita que anda falando com qualquer borra botas. Elas devem ser metidas mesmo).

Há uns rapazes raquíticos, enfim chegados aos dezesseis, mas com uma louca vontade de parecerem ter trinta anos. Essa é a classe dos sabiás, devido lhes serem finos os membros inferiores. Alguns dessa categoria tomam uns tais remédios que os veterinários usam para fazer cavalo brochar, mesmo diante das melhores mulas.

Há outros que têm pernas também atrofiadas e tórax iguais ao do Schwarzenegger. Esses são os gorilas espadaúdos e com cara de poucos amigos, a respeito de quem é melhor não fazer comentários mais detalhados, por uma questão de respeito que eles impõem na força bruta que os faz esturrar debaixo de anilhas que vão a duzentos quilos ou algo mais.

Pior é ver que, dentre os gorilas, existe uma parte significativa que, por mais que o treinador lhes fale sobre a necessidade de exercitar as pernas, eles nem ligam.

– Rapazes! As mulheres não gostam de braços grossos, nem de ombros imensos. Elas gostam mesmo é de pernas bem torneadas, instrumentos firmes e bumbuns arrebitados. – Era o que falava ontem, em alto e bom som, a professora bacaninha, psicóloga e maníaca sexual de uma academia periférica.

Dos tantos anos que tenho, metade deles vivi, praticamente, dentro de uma academia. Foi aquela moça, a Penélope Distraída, à época apenas uma dama de honra, quem me inseriu entre os cultores do corpo. Achou-me as pernas finas, os bíceps tenros, a bunda não dava um pastel, os ombros se encolhiam, dentre outros defeitos anatômicos apontados.

A partir daí, passei também a professar culto aos músculos, essa minha segunda igreja pequenina em frente da qual me posto, espada em punho, vaidoso, como todos, querendo achar beleza nas tantas vezes em que olho nos espelhos incrivelmente grudados em todas as paredes desta alma orgulhosa.

Sobre os espelhos, é preciso também observar que, nas academias, são como mares insondáveis a esconderem nas suas profundezas tanta vaidade e tanta beleza que os outros não veem, mas a vítima sente.

Lembro um sábio destes mais velhos, de sessenta e lá vai pancada, e brincalhão demais. Foi ele quem disse que os mais novos vêm para a academia para ficar mais bonitos. Os de certa idade, ao contrário, vêm exercitar-se para que, assim procedendo, possam morrer um pouco depois, ou mais tarde, quem sabe, com uns quinze anos de lambuja.

O arrojado nordestino é um outro analista de respeito. Foi ele o autor de uma das melhores tiradas por mim já ouvidas, enquanto descanso desse serviço pesado, que nós pagamos a bom preço, para que o capitalista nos deixe fazer força, até nos esbaforirmos em suores e desejos recônditos de nos tornarmos mais moços a qualquer hora da noite dos nossos sonhos juvenis.

– Professor, preste atenção! – Disse ele. – As mulheres só vêm para a academia depois que os maridos as deixam. Aí, a coisa já está quase na casa do sem-jeito. Às vezes, nem a faca do Pitangui será a solução. E nós, homens, só vimos pra cá quando as nossas mulheres já dobraram o cabo da boa esperança. Mas aí tem jeito. Hoje, seu moço, um bom punhado de dólares resolve até problema de virilidade.

Ao que eu respondi:

– Doutor! Os mesmos dólares, se gastos pelas mulheres, também podem comprar tanquinhos novinhos em folha, como foram os nossos abdomens antigamente. Ora pois!

O mundo, felizmente, carece de filosofia, mesmo que seja tão tosca quanto esses arrotos de sapiência. Mas é preciso pontuar que a vaidade e o orgulho são coisas diferentes, embora as palavras sejam frequentemente usadas como sinônimas. Uma pessoa pode ser orgulhosa sem ser vaidosa. O orgulho se relaciona mais com a opinião que temos de nós mesmos, e a vaidade, com o que desejaríamos que os outros pensassem de nós. Ali está o espelho.

Infelizmente, linhas tortas como estas são lidas por muitos, mas compreendidas por poucos. Afinal, estes tais que, como eu, frequentam as academias de malhação, não o fazem com a finalidade de exercitar a inteligência parca, mas para definir o futuro das rugas que um dia substituirão bíceps e glúteos hoje tão volumosos e saudáveis.

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*Escritor. Autor do romance O INVERNO DOS ANJOS DO SOL POENTE, disponível nohttps://www.facebook.com/claudio.porfiro

 

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CLÁUDIO MOTTA-PORFIRO*

Para um homem sozinho, o sonho da liberdade pode ser a luta correspondente ao transcurso de toda uma vida. Para um povo-nação, diferentemente, tal demanda pode equivaler a séculos de tentativas, insucessos, interlúdios de conquistas, golpes e contragolpes.

Os relatos de Andrés Alarcon são de tirar o fôlego...

Fiquei ali, plantado, por longas treze horas, esperando que alguém desse pela minha presença, sentado nas raízes de uma árvore frondosa. Bebi água do cantil amassado e comi pão bolorento do alforje mais velho que eu. Enfim, alguém me fez acompanhar em direção a um carro parado no meio da rua. Segundo essa anja loura e linda, a embaixada do país vizinho estaria disposta a me conceder asilo diplomático, em vista do meu elevado grau de estudos e devido aos muitos projetos sociais por mim levados a efeito entre os índios yanacona.

Moreno, média estatura, calvo, cabelos encarapinhados e um pouquinho fraco de feições, estivera por meses escondido na floresta amazônica, extremo sul colombiano. Fugira de Cartagena, tomando o rumo sul, e chegara à região de Valpés. Fazendo a travessia do rio do mesmo nome, alcancei a pequena cidade de Mitu e, por um triz, não consegui atingir o grande objetivo que era chegar à terra das oportunidades através do Estado do Amazonas.

Não logrei êxito e fui apanhado pelo exército. As vestes de um feiticeiro indígena em busca de ayahuasca além dos limites permitidos não foram de modo algum convincentes.

Cinco meses depois, em Bogotá, fui liberado para ir em busca de um passaporte com o qual poderia chegar à Venezuela através do Equador. Quase fui socado – jogado na marra – dentro de um velho fusca por uma moça brasileira. Em Manaus, duas semanas mais tarde, enfim, consegui uma bolsa de estudos para, na Unicamp, fazer cursos de pós-graduação em humanidades. 

A disciplina estudo de problemas brasileiros, em junho de 91, levou-me à apresentação de um trabalho detalhado sobre aspectos variados das culturas latino-americanas. Por quase três horas, fui sabatinado por uma multidão de pós-graduandos ávidos por conhecimentos sobre as políticas macro além das fronteiras do Brasil.

As perguntas findaram por tomar o curso previsto. Chamando para mim a metodologia do evento, fui enfático ao proclamar que, há seis mil anos, a humanidade vive uma guerra ininterrupta declarada pelos ricos contra os pobres, com direito a assassinatos, provas e testemunhos forjados, prisões injustas, assinaturas falsificadas, manipulação de informações, fraudes cartoriais, dentre outras muitas atrocidades. Os interesses dos poderosos não podem ser contrariados, nem que para isso eles tenham que matar milhões de humildes.

Para ilustrar tal assertiva, então, restringi-me apenas a alguns acontecimentos brasileiros.

Fatores dentro de um contexto levam os mais detalhistas a ver que a Cabanagem, no Grão-Pará, por exemplo, a partir de 1835, foi uma revolta onde os ricos queriam continuar massacrando, ou escravizando com o não pagamento de salários aos mais pobres cabanos –beraderos – que viviam miseravelmente nas margens dos rios. Interessava apenas o trabalho do caboclo em troca de uma alimentação rala fornecida pelos patrões.

Mas havia o açaí que dava substância para a luta no corpo a corpo. Durante cinco anos sangrentos, os revoltosos, pobres, conseguiram vencer os ricos em lutas armadas, a golpes de facão, no meio das ruas de Belém, fato que não era noticiado, posto que os poderosos, como sempre, detestam dizer quando perdem uma disputa contra gente faminta.

Os ricos vinham sendo ceifados e pediram ajuda, então, ao poder central. O todo poderoso império se armou com baionetas, arcabuzes e canhões, para uma luta contra os cabanos que não conheciam esse tipo de armamento. Os endinheirados findaram vitoriosos e o sistema escravagista se tornou ainda mais desumano.

Entre 1912 e 1916, os ricaços do sul do Brasil, em conluio com uma empresa americana, queriam construir uma estrada de ferro para transportar toda a madeira da região do Contestado, localizada entre Santa Catarina e Paraná, para São Paulo e, daí, para os mercados internacionais. Uma ideia subjacente era a europeização daquela parte do Brasil através dos imigrantes que povoariam, enriqueceriam e branqueariam a região.

Só que a terra era já povoada pelos caboclos, pessoas muito pobres, descendentes de índios, que não queriam desocupar o espaço que lhes pertencia desde tempos imemoriais. Escrituras foram forjadas, assinaturas, falsificadas e a opinião pública nacional de nada sabia porque os jornais da época, mancomunados com os poderosos, se encarregaram de esconder os fatos ou minimizá-los ao máximo.

Sob a liderança do monge José Maria, os camponeses, armados de enxadas e facões, ousaram desafiar a república branca. Bem mais de vinte mil pobres foram chacinados. A maioria destes foi jogada em valões sem sequer serem enterrados ou devidamente contados para os registros de guerra. Adeodato, o último líder, teve o corpo pendurado numa árvore e lá ficou até ser completamente devorado pelos urubus.

Canudos era um povoado paupérrimo com cerca de cinco mil habitantes em estado de miséria. Liderados por um beato de nome Antônio Conselheiro, esses nordestinos famélicos também ousaram desafiar o poder da República dos ricos armados até os dentes com paus e pedras. Eles não ambicionavam muita coisa. Exigiam apenas ser tratados como brasileiros legítimos com direito às benesses proclamadas pelo poder. Queriam água e condições para o trabalho na lavoura. Mas o presidente Prudente de Moraes, fazendeiro paulista de Itu, achava que eles não eram merecedores de vida digna.

Por dois longos anos, os sertanejos famintos venceram as escaramuças contra o exército nacional. Mas os ricos não podiam ter o seu poder desafiado e, como sempre, colocaram o seu dinheiro a serviço dos interesses próprios e armaram as tropas federais.

Como relata Euclides da Cunha, no livro Os sertões, não sobrou viva alma. Foi ele quem cunhou uma frase célebre segundo a qual o sertanejo é antes de tudo um forte.

Lampião, para os abastados do nordeste brasileiro, era um bandido, pois queria os bens materiais repartidos entre pobres e ricos. Para os pobres, ao contrário, na década de 1930, era ele a salvação contra a fome e a miséria que assolavam – e ainda reinam – a região. Prevaleceu o que queriam os poderosos. Veio o exército e, depois de seguidas derrotas, conseguiu aniquilar o Robin Hood dos pobres e o seu bando.

Nos anos 1940, a seca campeava pelo Nordeste afora. Milhares de sertanejos miseráveis acorriam em direção a Fortaleza, capital do Ceará. Mas os ricos da cidade pujante e bela não queriam se misturar com aquela gente suja e pobre, e houveram por bem inventar um posto para a higienização dos retirantes na cidade de Senador Pompeu. Esse local, protegido por cerca elétrica, virou campo de concentração e lá estão enterrados mais de cinco mil corpos que nunca chegaram a ver o mar.

A história é um círculo vicioso cujo andamento só pode ser interrompido pelas grandes revoluções. É assim que ainda hoje diz o nosso tão festejado professor Andrés Alarcon.

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*Escritor. Autor de O INVERNO DOS ANJOS DO SOL POENTE, romance, à venda nas livrarias Paim, Nobel e Dom Oscar Romero; ou pelo https://www.facebook.com/claudio.porfiro

 

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Ah, que dia inesquecível esse, dia em que comemorávamos o dia internacional das mulheres e fizemos uma homenagem às damas da Casa da Amizade, pois é lá que estão as maiores representantes de nossa organização rotaria. Dia de terça-feira, as nossas reuniões ainda eram nesses dias e todo mundo fazendo a papagaiada de arrumar flores para fazer e entregar para essas senhoras. Enfim chegou a hora da reunião delas e fizemos a tão esperada homenagem a elas, tiramos fotos e tudo que tínhamos direito.

Como somos pessoas ocupadíssimas, fomos para frente da Casa da Amizade, salinha, cozinha e tantos outros lugares fazer o que sabemos melhor fazíamos, ou seja, nada, a não ser como já disse antes fofocar e falar da vida dos outros (parece até uma novidade).

Já são nove horas da noite e já era hora da dona N arribar o pandeiro. Muito bem, nesse dia a minha amiga BF estava com cólica e eu muito solidário me ofereci para ajudar, já que ela se queixava de dores nas pernas.

Solicitei que ficasse parada, dai a tomei nos braços e fui levando para o carro dela, com a mãe dela morrendo de rir dessa arrumação e quando pensamos que não, quem para do nosso lado oferecendo ajuda?! O carro do Samu com aquele 192 enorme na nossa fuça oferecendo ajuda. Foi aí que a BF entrou em desespero porque estava de saia e não sabia se puxava ela ou tentava se esconder da vergonha pela qual passávamos juntos.

A BF contou o caso ocorrido e logo tomou uma proporção enorme onde eu fiquei conhecido naquele ano por todos que visitavam a casa dela como “menino do Samu” e para que ela foi contar isso, até quem não me conhecia passou a me conhecer, mas uma coisa louca e divertida dessas, só poderia acontecer com a gente mesmo.

Por amizade e com amigos a gente faz tudo ser divertido. Não fuja da vergonha de se divertir, aproveite cada segundo e evento, pois nunca se sabe que caminhos o destino reserva para cada pessoa.

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CLÁUDIO MOTTA-PORFIRO*

Eras de ventos fortes e trovoadas ensurdecedoras em que livros voam. Coisa de doido. Pelas novas vias de comunicação, a mentira assola feito a tempestade dos infernos. As pessoas blefam com uma facilidade dos demônios, simplesmente, para demonstrar, de forma tosca, que o argumento do outro é uma porcaria qualquer. Já não se suportam, porque a ignorância reverbera e os intolerantes ganham fôlego com as suas idiossincrasias e o seu racismo estilo pé no pescoço. Vivemos uma época em que as pessoas que nada sabem querem opinar sobre, principalmente, aquilo acerca do que nunca ouviram falar. É uma puta celeuma.

Incrível mesmo é que os que realmente sabem ficam apreciando o ridículo que é um ente querer discutir o sexo do anjos sem nunca sequer ter ido às vias de fato com um. Anjo que se preza não vai pra cama com qualquer zé ruela.

 Isto posto, a professora francesa Anne-Marie, estoicamente, se predispôs atravessar o grande oceano para vir fazer um intercâmbio quase inusitado no Brasil. Assim no estilo extremamente decidida. Do tipo ou vai ou racha, ou arrebenta a tampa da caixa. Ou rica dona do engenho, ou pobre puxando o bagaço da cana.

Há alguns anos, ela cursara ciências políticas, em nível de mestrado, na Sorbonne Paris VIII, e partira para uma pesquisa avançada na comuna de Neuilly-sur-Seine, um conglerado de sítios de camponeses antes sem terra, naquele ínterim, sob a orientação do socialista Nicolas Sarkozy.

Agora, pois, ela se meteu na aventura que é a descoberta do novo mundo, estes rincões sul americanos em que a vida do próprio humano não vale uma gota de porra nenhuma, ou o que o gato enterra, segundo foi percebido nas palavras de um magnata inglês ao ser inquirido sobre se ele não se importava em comprar o mogno brasileiro na Amazônia por um preço tão abaixo da realidade de mercado, ao que ele simplesmente respondeu:

- Ora, senhores. Se, naqueles lados do mundo, a vida humana não tem nenhuma importância, que valor eu posso dar para uma árvore de mogno? Já estou pagando é muito. Ora, pois.

E veio para cá a Anne-Marie, com os seus tufos de cabelo nos sovacos, assim meio que aos trambolhões, no olho da tempestade de intolerância que se instalou com a saída da presidenta. Poucos brasileiros entendiam o golpe. A maioria só atrapalhava, em vista dos parcos estudos. Apenas os analistas internacionais viam no conjunto das ocorrências que os fatores que levaram ao caos foram -  e continuarão sendo -  meramente propostos e levados à execução segundo o que pensam os americanos. Ô raça ruim!

Pois bem. Ela falava um português muito razoável e o intercâmbio, de seis meses, se fez acontecer na periferia da maior de todas as cidades brasileiras, onde a pesquisadora foi recebida, indiferentemente, como se ninguém fosse, uma vez que sequer foi apresentada ao grupo de professores secundaristas que ali mais reclamam da vida que dão exatamente aulas. Aliás, a diretora sequer lhe perguntou o nome.

Em anotação subsequente, ela registrou que tudo isso já era esperado, uma vez que, ali, a preocupação maior é com a sobrevivência de profissionais famintos que ganham salários irrisórios apesar da propalada riqueza arrotada em caviares e chamdons pela desmesurada elite paulistana, tão boçal quanto o Dória, um seu representante exacerbadamente maricas.

Um dia depois, então, foram reunidos uns duzentos alunos em um auditório embolorado e sombrio. Não havia sequer um microfone, mas, heroicamente, durante quarenta minutos, ela falou sobre as políticas de desenvolvimento social vinculadas à arte da produção literária.

Em seguida, ao toque de uma sirene que mais parecia de um presídio, hordas de estudantes enlouquecidos se dirigiram para os corredores. Mas é conveniente considerar que menos de um quarto deles permaneceu no auditório.

O que ela viu, então, deixou-a estarrecida. A secretaria de educação havia largado, ali pelas imediações, alguns fardos contendo livros didáticos das mais variadas disciplinas. Talvez uns cinco mil volumes.

Numa diversão patética, esdrúxula, ridícula, basbaque, os alunos abriram as caixas de papelão e passaram a atirar os volumes uns nos outros. Como se estivessem voando, os livros eram vistos passando através das janelas que não tinham janelas, e muito menos caixilhos. Loucura total.

A farra perversa demorou uns quinze minutos. Os exemplares ficaram todos estropiados, amassados, rasgados, fodidos. Alguns dos alunos se feriram, mas, o que foi anotado pela professora francesa veio mais tarde a se tornar o capítulo essencial para a defesa da sua tese de doutorado, cujo título passou a ser a incrível história dos livros voadores.

Cômico seria, se não fosse tão trágico e deveras ultrajante. Segundo anotações da pesquisadora francesa, a alienação é total. Realmente, a grande mídia que opera no terceiro mundo – e aí se inclui o Brasil – forja mentiras, falseia verdades, manipula informações, de modo a estar sempre colocando no bolso os menos favorecidos. Este é o modus operandi dos ricos que estão sempre dispostos a defecar nas cabeças dos pobres. Há uma falta de discernimento generalizada no que tange à percepção entre o que é falso e o que é verdadeiro, tendo em vista a manipulação geral que distancia, cada vez mais, os livros das pessoas mais humildes, estas que bem poderiam fazer as mudanças reais, posto que somam mais de uma centena de milhões de brasileiros aturdidos e colocados em confronto uns contra os outros. Os grandes canais de comunicação estabeleceram a intolerância como ordem do dia. É pobre fardado perseguindo pobre com fome e nenhum deles enxerga que o objetivo de todos é apenas o benefício da luz do sol dos justos.

No meio da guerra de informações verdadeiras e falsas (fakes), um ingrediente ainda mais caótico é colocado em meio ao caos. Os bons livros sumiram das vidas das pessoas. Nem pornografia se lê mais. Preponderam apenas informações que alienam, crescentemente, e os conceitos são entendidos da forma que querem os grandes pensadores da extrema direita. O real conceito de política, por exemplo, ficou já na poeira dos anos, pelo menos para a superior maioria dos brasileiros. Fazer política é tão somente falar mal do adversário que, hoje, é visto como o inimigo visceral que deve ser colocado fora de circulação.

Já não se diz nas escolas – e muito menos se lê nos livros, que sumiram – que a primeira política é a da boa vizinhança e a segunda é a do desenvolvimento social que beneficia a todos, indistintamente.

Um dia, o senhor Russel houve por bem deixar escrita alguma coisa parecida com a assertiva segundo a qual os estúpidos buscam a primeira fila com o intuito de aparecer, de serem vistos. Já os inteligentes colocam-se na retaguarda com o objetivo de apreciar o ridículo que é o grande espetáculo das atrocidades gerais.

Quando Anne-Marie escreve as suas verdades acachapantes, é porque já está cansada de ficar lá atrás da turba ensandecida apenas rindo dos infelizes. Ela quer ir à luta.

Convém que os livros deixem de voar e, enfim, pairem sobre as mentes deturpadas da imensa maioria destas gentes esquecidas do terceiro mundo.

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*Escritor. Autor de O INVERNO DOS ANJOS DO SOL POENTE, romance, à venda nas livrarias Paim, Nobel e Dom Oscar Romero; ou pelo https://www.facebook.com/claudio.porfiro

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CLÁUDIO MOTTA-PORFIRO*

Das asperezas da vida, os talentosos extraem sempre alguma coisa boa. Para eles, nem tudo é tão ruim. Sempre dá para tirar algum proveito do caos. Todavia, a realidade é estrábica com as pessoas que nascem e crescem sem fazer maiores esforços. Gente assim não apenas tende a ficar obesa, em vista da fartura e do sedentarismo, como não pode sentir uma dificuldade e já pensa logo em desistir de tudo. Pior é que, dentre os ditos filhos de ricos, as rotinas preguiçosas os conduzem aos vícios. O talento vai pelo caminho da morbidez. A busca, agora, é por escapar do cotidiano letárgico. E se escafedem. Morrem cedo.

Nada de ruim está previsto acontecer a nenhum de nós. Acontece porque tem que acontecer. Referindo-se ao casamento fantástico que fizera com a minha mãe, dizendo-se sortudo demais por havê-la encontrado, meu pai bradava aos quatro ventos que casamento é que nem topada: ou você vai pra frente de uma vez, ou toma uma senhora queda e leva um bocado de arranhões nos joelhos e na cara. Pense num sujeito talentoso. É mesmo assim a vida que Deus nos dá de presente. Ora, pois.

Então, eu quase vi tudo acontecer mais ou menos assim...

Um feixe de luz intenso, azul clarinho ou branco, se desprendia das nuvens rarefeitas de uma daquelas noites claras de sono, suor e sonhos mirabolantes. (Rico ri à toa e pobre tem mania de sonhar, inclusive, acordado e com fome.)

Era verão no hemisfério sul. Um vento brando, morno, ou quase isso, temperava a atmosfera agora iluminada por uma réstia pálida de luar. O rio, muito largo, não permitia a ninguém vislumbrar as margens perdidas na imensidão. Mesmo de dia, tal fator impressionava a quem quer que fosse. A água mansa e lisa era cortada pelo farfalhar provocado pelas hélices do pequeno vapor amazônico. Um pássaro noturno qualquer dava sobrevoos e soltava pios tão estridentes que se faziam ouvir, apesar do barulho da casa de máquinas. O jantar fora servido cedo e, agora, algumas pessoas trocavam impressões acerca daquela viagem formidável através do grande caudal. (O rio Amazonas proporciona vertigens em que o caboclo pensa duas vezes antes de nada fazer, porque está com pouca vontade de fazer coisa alguma, e pega no sono.)

No tombadilho da embarcação, por segundos, o menino se fizera ofuscar por uma luz que provinha dos céus. A mãe, bem próxima dele, percebeu o fenômeno, mas nada comentou. Não seria uma estrela cadente. Impossível. Se a lua estava a oeste, não havia explicação para aquela espécie de aurora boreal em ares tropicais ter ocorrido de forma tão rápida e exatamente a leste. Entorpecida pela brisa e pelos cheiros noturnos do rio, ela logo esqueceu a ocorrência. Talvez um dia viesse a lembrar. Quiçá.

Ela pensava no pai, exímio jogador de cartas e dono de uma roleta de jogo do bicho, segundo quem palpite de banqueiro é bom, porque quando não ganha, perde. Junto com o filho, estavam mudando de cidade e nada de ruim aconteceria. Não havia porque dá erro. Estava tudo acertado. Seria professora na capital e ensinaria, inclusive, aquilo que sequer conseguira aprender. Não era tão forte no quesito evolução, para não falar de inteligência.

Agora aos seis anos, o pequeno príncipe, conforme costumava denominar a mãe, portava retinas clarinhas de topázio e cabelos negros meio lisos ou levemente ondulados, além de um nariz adunco em vista da descendência judaica. Olhares penetrantes viajavam com a rapidez de um raio. Uma pele clara de leite desnatado lhe compunha a paisagem pessoal e intransferível. Calçava botinhas de couro e meias até quase o joelho. As calçolas, de casimira azul marinho, e a camisa branca em mangas de punho emprestavam a ele um certo ar de fidalgo. Nascera para observar e fazer anotações, que viriam a ocorrer apenas muito mais tarde, na adolescência, quando a cama e o travesseiro começassem o seu diálogo noturno.

Nada disso era real. Estivera a mãe em um sonho romântico, delicioso, um tanto lírico, colorido, iluminado, daqueles que nem mais dá vontade de acordar. (Coisa de mulher abobalhada que continua sonhando com um príncipe vagabundo que lhe plantou um filho e fugiu para o Maranhão.)  

Mais tarde, muito mais tarde na vida, o menino passou a fazer ponderações acerca da condição humana. De olho no telhado acima da cama de campanha, já em sonhos febris em que moças nuas imaginárias desfilavam na penumbra do quarto, ele pensava no que uma tia lhe falara a respeito das habilidades com que cada humano nasce. O vizinho da esquina próxima diz versos de cordel como poucos, apesar de ser cego de balançar a cuia. O outro, da rua perpendicular, faz sapatos com imensa maestria. O moço que abrilhanta os bailes com a sua sanfona e a senhora que o acompanha ao violão são divinos, assim como a professora bonita ao piano. O homem de pele escura faz o pandeiro sorrir e escreve sonetos de amor. O outro esculpiu em cimento uma imagem do padroeiro. A mocinha que ensina as primeiras letras é prodigiosa e quase obra milagres ao ensinar com uma certa facilidade a tantas crianças a arte de emendar letrinhas e juntar números. Coisas de Deus.

Pensando bem, o talento é mais barato que a luz do sol em qualquer hora do dia. O que separa o homem ou a mulher de talento daqueles que se dão bem na vida é um rio de suores vertidos em vista da crueza dos esforços cotidianos. Progredir requer tutano e esforço. Vamos ao serviço!

Ademais, é perceptível a olhos nus o fato de que aqueles que são abençoados com o maior talento não têm, necessariamente, um maior desempenho que todos os outros. São as pessoas que levam as coisas do princípio ao fim que brilham. Viaja-se do sonho ao projeto e à ação de conformidade com a vontade que cada um tem de ver os seus objetivos plenamente alcançados. Enfim, é como prega o velho ditado nortista, é preciso ter fé no talento de Deus e botar o pé na tábua.

E vem a luz que faz surgirem os iluminados. No entanto, há os que apagam a sua própria lamparina, desperdiçam os seus sonhos, não têm, ou não buscam (não lhes deram) as oportunidades, e habitam o limbo sombrio e letárgico das frustrações tão próprias da modernidade.

Um dia, o menino contador de estrelas anotou o que leu nos alfarrábios de um livre pensador e sonhador de ofício qualquer. Era uma parábola cheia de efeitos gerais.

Nas madrugadinhas dos dias ímpares de um mês e dos dias pares do outro, o Criador se dispõe a operar umas das suas tarefas mais nobres, até porque todas o são. Sonolento e não muito confiante nos milhões de gigas do seu computador ultramoderno, Ele sai em viagem, talvez de visita, através das mil quatrocentas e dezenove esquinas da Terra. (Muitos cantos assim é porque o planeta em que vivemos nunca teve nenhuma pretensão de ser quadrado justo em vista da competência Divina.)

E por aí vai Deus, na boa. De posse de um alforje de couro de lhama cheio até o cordão de um pozinho azulado e luminoso, Ele espalha pelo mundo inteiro aquela substância encantada, como se estivesse jogando tempero numa panela gigantesca.  É assim que o Divino opera a distribuição de talento; e este vai caindo sobre a cabeça de um sem número de humanos, independentemente de raça, origem social ou credo. Por isso, há os gênios amarelos, sunitas, negros, índios, etíopes, cristãos, judeus e muçulmanos. Aqui entre nós, no mundo dos homens, é que as relações humanas deixam de dar oportunidades de progresso a muita gente talentosa que, mesmo assim, em grande parte dos casos, teima em se fazer sobressair.

É mesmo assim. Basta prestar atenção àquele doutor em engenharia não-sei-das-quantas. Deram-lhe oportunidades e, hoje, ele pilota um Boeing no trecho entre Paris e Tóquio. O pai e a mãe eram seringueiros que nunca aprenderam a ler. São as semeaduras do Divino.

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*Escritor. Autor de O INVERNO DOS ANJOS DO SOL POENTE, romance, à venda nas livrarias Paim, Nobel e Dom Oscar Romero; ou pelo https://www.facebook.com/claudio.porfiro >

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Por Fabiana Luiggi, PhD e Coordenadora de Pesquisas Aplicadas da Yes

O intestino é a parte caudal do canal alimentar, e divide-se em intestino delgado e intestino grosso. O intestino delgado compreende duodeno, jejuno e íleo, e o grosso é composto por ceco, cólon e reto. No delgado a superfície da mucosa aumenta consideravelmente, devido à presença das vilosidades intestinais, essenciais para a absorção de nutrientes, a principal função do intestino delgado. O intestino grosso não apresenta essas vilosidades, e sua principal função é a reabsorção de água e eletrólitos, antes da eliminação do bolo fecal (KONIG & LIEBICH, 2016).

Diversos estudos revelam a complexa microbiota que habita o trato gastrointestinal de mamíferos e aves, incluindo bactérias, fungos, protozoários e vírus. Estima-se que a carga microbiana total presente no intestino de mamíferos seja de 1012 a 1014 microrganismos, cerca de 10 vezes o número de células do hospedeiro. O conteúdo genético desses microrganismos é definido como microbioma intestinal (SUCHODOLSKI, 2010).

Essa diversificada população de microrganismos influencia diretamente o desenvolvimento, a regulação e a função do sistema imunológico. Sabe-se que o GALT, tecido linfoide associado ao intestino, possui cerca de 60 a 70% de todos os nossos linfócitos (BELLANTI, 2012). Estima-se que mais de 80% das células B ativadas do corpo sejam encontradas no intestino. A microbiota modula a imunidade sistêmica, uma vez que múltiplas populações de células imunes intestinais requerem a microbiota para seu desenvolvimento e função. Por outro lado, um sistema imunológico mais robusto é mais capaz de combater patógenos microbianos e fornecer uma residência saudável para bactérias comensais.

A microbiota combate agentes patogênicos por diversos meios de ação. Atua competindo por metabólitos essenciais e nutrientes (mecanismo denominado de exclusão competitiva), e produzem substâncias (bacteriocinas e ácidos graxos de cadeias curta e média) que inibem o desenvolvimento dos patógenos. Assim, o organismo hospedeiro e sua microbiota atuam sinergicamente contra agentes infecciosos (LEE & MAZMANIAN, 2010; TIZARD & JONES, 2017).

As bacteriocinas produzidas pelas bactérias benéficas presentes em nossa microbiota (bactérias lácticas) são peptídeos pequenos, termoestáveis e de espectro antibacteriano, podendo inibir o crescimento de bactérias patogênicas gram-positivas, leveduras e algumas espécies de bactérias gram-negativas.

A maioria das bacteriocinas age permeabilizando a membrana por meio da formação de poros, o que promove a dissipação da força próton motora e a inibição do transporte de aminoácidos, levando à morte celular. Outras bacteriocinas podem inibir também bactérias gram-negativas, porém, precisam transpor a membrana externa da parede celular e alcançar a membrana plasmática da célula-alvo para atuarem (OGAKI & FURLANETO, 2015).

Os principais ácidos orgânicos produzidos são o acético, o propiônico, o butírico e o lático. Em sua forma não dissociada, ou seja, não ionizada, atravessam a membrana celular. Uma vez no interior do microrganismo, os ácidos se dissociam, reduzem o pH interno (mantido próximo de 7,0) e inativam as enzimas celulares e o sistema de transporte de nutrientes (PARTANEN & MROZ, 1999). Na tentativa de reestabelecer a homeostase celular, o microrganismo inicia um processo de retirada dos prótons acumulados em seu interior, por meio da bomba de Na/K, processo ativo (gasto energético) que promove o esgotamento e morte celular.

Não é difícil compreender a razão pela qual, quando há desequilíbrio (disbiose) na microbiota intestinal, favorecendo o desenvolvimento de bactérias patogênicas, o organismo se torna mais susceptível ao aparecimento de doenças.

 

Na literatura encontram-se diversas pesquisas que correlacionam a disbiose intestinal com diferentes distúrbios metabólicos, o que demonstra a importância de tecnologias desenvolvidas visando fortalecer as bactérias benéficas que colonizam o intestino, amplamente utilizados na nutrição humana e animal, como os prebióticos, os probióticos, os ácidos orgânicos e os óleos essenciais.

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Sobre a YES

A Yes, empresa de biotecnologia em nutrição animal, desenvolve aditivos nutricionais como adsorventes de micotoxinas, prebióticos e complexos organominerais, com o objetivo de melhorar o desempenho e a saúde dos animais. Todos os produtos estão de acordo com as mais rigorosas leis dos mercados mundiais, como Estados Unidos e Europa. Fundada em 2008, a Yes tem escritório-matriz em Campinas/SP, três plantas de produção, uma em Lucélia/SP, uma em Santa Isabel/SP e uma em Borá/SP, um Centro de Logística e Distribuição em Lucélia/SP e outro em Londrina/PR. Atua em todo o Brasil, além de exportar para mais de 20 países, estando presente na América Latina, no Egito, na Indonésia, Tailândia, Filipinas e em Benim. Desde 2016 a empresa faz parte do portfólio de investidas do fundo de investimentos Aqua Capital. Mais informações no website: http://www.yes.ind.br/.

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Multinacional israelense apresentou tecnologia de controle digital da irrigação

A Netafim, multinacional israelense líder global e pioneira em irrigação por gotejamento, registrou aumento de 40% no volume de negócios se comparado a 2017 – totalizando o melhor resultado da empresa em todos as edições da Agrishow - Feira Internacional de Tecnologia Agrícola. A 25º edição aconteceu entre os dias 30 de abril a 05 de maio, em Ribeirão Preto (SP).

Nos cinco dias de exposição, a Netafim apresentou aos visitantes sua nova tecnologia de controle e monitoramento digital da irrigação. O conceito denominado, Digital Farming, permite que os agricultores façam o acompanhamento em tempo real de todos os processos da fazenda, desde o manejo da irrigação, solo, clima, entre outros, por meio da plataforma NetBeat, desenvolvida em parceria com a empresa responsável pela elaboração dos sensores antimísseis de Israel.

A multinacional também levou as soluções de irrigação inteligente, sistema gota a gota, que permite o melhor aproveitamento da água e nutrientes, garantindo safras mais produtivas. A tecnologia pode ser aplicada em qualquer tipo de cultivo, desde grãos, café, cana-de-açúcar, citrus, HF, dentre outros.

Segundo Elon Svicero, Diretor Comercial da Netafim, os resultados positivos também foram motivados pela situação atual do agronegócio brasileiro e a necessidade constante dos agricultores na procura de soluções sustentáveis de produção. "Em função das instabilidades climáticas que temos visto nos últimos anos, o produtor tem buscado a irrigação inteligente como garantia de produção, aumento de produtividade e otimização dos recursos, sejam eles água, energia ou nutrientes", conta.

25º Agrishow

Neste ano, a Feira Internacional de Tecnologia Agrícola também registrou um crescimento na realização de negócios de cerca de 22%, o que significa um volume de R$ 2,7 bilhões, fazendo da 25ª edição a maior da história. Em 2017, foram registrados negócios da ordem de R$ 2,2 bilhões.

O número de visitantes da Agrishow 2018 também superou as expectativas dos organizadores. Nos cinco dias de evento foram 159 mil pessoas que percorreram os mais de 440 mil m².

Durante o ano de 2017 por conta principalmente das operações de fiscalização de órgãos ambientais federais na cadeia produtiva da pecuária, o monitoramento dos fornecedores que não vendem bois diretamente para os frigoríficos, ou seja, os “fornecedores indiretos”, voltou com força nas discussões setoriais, ocupando com outras temáticas a agenda dos atores desse setor econômico no que tange às questões socioambientais.

A importância de chegar à origem do gado reside no fato que as atividades de cria e recria por ser menos exigentes em termos de qualidade do pasto e não monitoradas pelos acordos legais e voluntários da pecuária amazônica, se instalaram na fronteira do desflorestamento no bioma amazônico.

Amigos da Terra – Amazônia Brasileira, que há anos fez da temática uma das suas bandeiras por conta da contribuição que o monitoramento pode trazer na luta contra o desmatamento conseguiu, nesse contexto, reforçar seu papel de facilitador de relações entre os atores ao longo da cadeia.

Desse trabalho elaborei 5 pontos que, na minha visão de observador, são chaves para que, no decorrer de 2018, se possa começar um processo para escalar o monitoramento dos fornecedores indiretos da cadeia da pecuária amazônica e estendê-lo para outros biomas importantes em termos de conservação de vegetação nativa como o cerrado.

A seguir estão os pontos:

1 – Garantir o acesso às informações das propriedades/proprietários e sua confidencialidade

O acesso às informações como CAR e GTA é importante para localizar as propriedades dos fornecedores indiretos. A análise dos documentos pode ser feita por plataformas que garantam a confidencialidade dos dados mais sensíveis, que possam gerar algum desconforto aos produtores e serem compartilhados somente aqueles já comumente divulgados.

As informações poderiam ser analisadas utilizando-se duas metodologias:

  1. a) Base de dados oficial do governo ou plataformas seguras e de confiança do produtor. Elas têm capacidade técnica de fazer essa análise e correlacionar o caminho do gado de propriedade em propriedade, dando um sinal verde ou vermelho a quem faz a consulta sem fornecer o acesso detalhado aos dados dos produtores;
  2. b) Sistema voluntário, no qual os produtores autorizam o acesso às informações. Pode ser um primeiro passo para mostrar a segurança dos sistemas de análise, mas para alcançar a abrangência necessária à conservação dos biomas na sua totalidade ao acesso às bases públicas de dados resta um fator determinante.

2- Seguir o boi

Considerando-se que podem existir múltiplos proprietários e propriedades, detentores de posse legal e unidades produtivas/epidemiológicas na mesma propriedade, além de erros dos mais sérios aos mais banais (erro de digitação, por exemplo) nas bases de dados oficiais, como o do CAR, o rastreamento das propriedades (por onde os animais passam) ainda é um desafio a ser superado.

A base de dados das empresas de monitoramento para o controle de fornecedores diretos também amadureceu ao longo do tempo, passando da simples identificação de um ponto da fazenda a uma descrição mais precisa de seus limites, proprietários e/ou usuários/arrendatários. A mesma coisa poderia acontecer com os fornecedores indiretos. A velocidade disso pode variar da decisão de compartilhar informações e dos incentivos públicos e privados que os envolvidos poderão ou não receber.

3- Todos os elos da cadeia produtiva têm responsabilidades nesse processo

O produtor tem que agir mais proativamente na relação com seus fornecedores e também precisamos entender quais serão os incentivos que o estimule a fazer isso.

Um dos atalhos que podem ser percorridos para incentivar os pecuaristas a englobar nas suas práticas o monitoramento socioambiental das propriedades é acoplá-lo a uma gestão mais refinada do rebanho. Não há dúvidas de que já está acontecendo, em forma de tendência, uma aproximação das empresas que auxiliam os produtores nas duas frentes, gestão da propriedades e monitoramento socioambiental. “Cavalgar” nessa onda poderá encurtar o caminho para que as práticas de monitoramento de indiretos se tornem habituais no mercado.

Um olhar especial precisa ser dado para os produtores que não têm capacidade técnica de encarar esse desafio, pensando em soluções para incluir os pequenos nos processos de monitoramento.

4- Trabalhar com o universo pulverizado de fornecedores indiretos

Pelas análises efetuadas até agora (entre produtores do Pará, principalmente) cada fornecedor direto tem múltiplos fornecedores indiretos, isso significa que o número de análise para verificação de um rebanho pode aumentar muito, mas o contrário também é verdadeiro. Ou seja, no monitoramento de um fornecedor indireto já estão contemplados vários diretos, o que pode ser um ponto de incentivo na possibilidade de compartilhar informações, criando, por exemplo, listas positivas de fornecedores indiretos.

5- Não transformar o processo em algo excludente e definitivo

A reintegração é uma questão que levanta interesse de todos os elos da cadeia. A clareza no procedimento para que seja seguro, inclusive juridicamente, o monitoramento do processo de restauração do dano ambiental (como no caso da restauração florestal) são pontos essenciais a serem tratados para que exista uma solução efetiva tanto quando se fala de desmatamento legal quanto de desmatamento ilegal, para que os proprietários tenham uma segunda chance e não sejam empurrados para mercados clandestinos ou ilegais, além de uma efetiva recuperação do manto florestal. 

Um processo de reintegração claro é um dos fatores que pode ajudar a reduzir o vazamento, que se traduz em produtores que por não cumprirem os requisitos socioambientais vendem para frigoríficos que não monitoram suas compras. A abrangência da aplicação dos requisitos socioambientais é algo fundamental para que se possa ter um ambiente de negócio justo para quem está cumprindo com os requisitos socioambientais legais e voluntários, pensando em soluções que possam ser aplicadas para todos os atores do setor, do maior ao menor, seja do lado da produção ou da indústria.

Além disso, precisam ser punidos aqueles que atuam sistematicamente no mercado ilegal para que não sejam criados mercados paralelos fortes que prejudiquem os esforços na direção da legalidade.

Marco F. Mantovani é Analista do Programa Agropecuária da Amigos da Terra – Amazônia Brasileira

 

Sobre o GTPS

Em formato de Mesa Redonda, o Grupo de Trabalho da Pecuária Sustentável (GTPS) é a primeira associação mundial sobre práticas sustentáveis na cadeia da carne bovina e referência para países como Argentina, Uruguai, México e Austrália. O GTPS, formado por representantes de diferentes segmentos que integram a cadeia de valor da pecuária bovina no Brasil, tem como missão promover o desenvolvimento da pecuária sustentável por meio da articulação da cadeia, melhoria contínua e disseminação de informação.