Com dificuldade em entender o português, índios de Santa Rosa do Purus perdem parte da identidade cultural quando vão para a cidade estudar

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No município, há três etnias que predominam, Kaxinawá, Kulina e Jaminawá. Índios buscam a zona urbana para ter um ensino de qualidade na cidade.


Com uma população estimada em 6.430 habitantes, segundo o Instituto de Geografia e Estatística (IBGE), o município de Santa Rosa do Purus, no Acre, tem em sua maioria habitantes indígenas. No total, de acordo com o chefe da Fundação Nacional do Índio (Funai) na cidade, Augusto Reis, há ao menos 4 mil índios distribuídos nas zonas urbana e rural, sendo de três etnias diferentes, Kulina (madja), Kaxinawá (Hunikui) e Jaminawá.


Mesmo a população sendo em sua maioria indígena, há apenas 850 índios com residência fixa no município, segundo a Funai. Os índios têm perdido parte da identidade cultural quando saem da zona rural para a cidade em busca de estudos. As vezes, por vergonha de seguir com os costumes e até por falta de tradutores em escolas que entendam e traduzam o idioma, eles acabam perdendo a identidade cultural.

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Os kulinas, etnia que antes não era vista na cidade em busca de estudo, são os mais afetados atualmente por não entenderem o português, idioma que é ensinado nas salas de aula.


A professora e coordenadora da Escola Antônia Fernandes de Moura, Leidiane Marques Lima, confirma o problema e diz que além da dificuldade em entender o português, outro problema enfrentado é a interação social.


“Eles não entenderem a nossa língua, se sentem muito reprimidos nas salas de aula, mesmo os professores tentando fazer com que eles se socializem com os outros alunos. Eles não entendem o que a gente fala e também não conhecem a nossa língua escrita”, disse.


O professor José Domingos Kaxinawá, que trabalha em uma escola rural da cidade, falou que o problema vem de berço e que depende da convivência familiar de aldeia. Segundo ele, alguns indígenas têm interesse em que os filhos aprendam mais rápido e acabam mandando os filhos com pouca instrução para a cidade.


“Na zona rural está muito lento, porque o professor viaja muito e tem também muito professor que não sabe ensinar direito o português. A solução seria formar um grupo de jovens especializado em educação indígena para acompanhar eles na prática, teoria e no cotidiano, porque eles ficam muito isolados na cidade”, falou.


Domingos afirmou que a aula na zona urbana é diferente da que que é aplicada na comunidade. “Eles saem, brincam, aqui [cidade] não tem isso, eles acham muito difícil a metodologia, no caso os kaxinawás da cidade que moram aqui não, porque eles nasceram aqui e já entendem um pouco o português”, falou.


O professor disse ainda que os indígenas que chegaram do Peru são os que têm mais dificuldade, e por isso os pais decidem levá-los para a cidade para aprenderem o português.


“Para que eles não percam a identidade cultural, já temos um grupo de jovens para fortalecer e resgatar a identidade dos índios, porque eles estão perdendo. Em relação aos indígenas que não aceitam sua identidade e querem dizer que não são índios, depende dos pais, que devem orientar e manter a cultura e respeitar, porque nós nascemos índios, podemos nos formar, conviver em sociedade, mas vamos morrer índios, do mesmo jeito os brancos”, acrescentou.

 

 

Sandra Brito